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Resumos de livros

Holocausto Brasileiro (Resumo de livro + Opinião)

Postado em 04/06/2014

LIVRO "HOLOCAUSTO BRASILEIRO"

AUTOR DO LIVRO: DANIELA ARBEX

AUTOR DO RESUMO: WILTON FONSECA
 
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OPINIÃO SOBRE O LIVRO:

A autora relatou com sensibilidade uma página de terror na história de nosso país. O livro, cruamente ilustrado, é um documento que envergonha, mas serve de alerta para não deixarmos que episódios sórdidos como os relatados se repitam.

Daniela Arbex, no final da obra, fala sobre o problema da droga e como as famílias tentam resolvê-lo: pelo confinamento do dependente.

Instituições despreparadas, desgraçadamente, criarão novos Colônias. A última frase do livro leva-nos a pensar: “É tempo de escrever uma nova história e de mudar o final.”

RESUMO:

I – O Pavilhão Afonso Pena

Manhã fria de uma segunda-feira de 1975 em Barbacena, Minas Gerais. Marlene Laureano, atendente psiquiátrica, chega ao seu local de trabalho, uma área de 8 milhões de metros quadrados. Ao final do trajeto, repleto de prédios protegidos de grades, entrou no Pavilhão Afonso Pena com cerca de 1500 metros quadrados para cumprir o seu primeiro dia de trabalho.

Um cheiro insuportável alcançou sua narina. O esgoto atravessava o pavilhão onde duzentos e oitenta homens, a maioria nus, rastejavam pelo assoalho. Alguns estavam mortos devido ao frio.

Marlene desinfetou o chão coberto de fezes e de urina não só humanas, mas também de ratos. Começara a trabalhar num campo de concentração travestido de hospital. A instituição funcionava desde 1903 com o apoio da Igreja Católica.

Os diagnósticos, no início do século XX, eram padronizados e pelo menos 70% dos internos não eram doentes.  Maria de Jesus estava internada porque era triste. O Colônia, esse é o nome do hospital, tornou-se destino de desafetos, homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoolistas, mendigos, negros, pobres, esposas trocadas por amantes, prostitutas, pessoas sem documentos e todos os tipos de indesejados.

Em 1960, havia 5 mil pacientes onde cabiam 200. As camas foram substituídas por capim por causa da falta de espaço. Somente em 1980, alguma pálida providência foi tomada.

Sessenta mil pessoas perderam a vida no Colônia. Restam hoje menos de 200 sobreviventes dessa tragédia silenciosa.  Aqui, começa a ser contada a história do Holocausto Brasileiro.

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A estação Bia Fortes era a última parada dos deserdados sociais. Vinham no denominado “trem de doido”. Assemelhavam-se aos judeus levados, na Segunda Guerra Mundial, para os campos de concentração. Ao entrarem no “trem de louco”, os passageiros tinham a humanidade confiscada.

Ao desembarcarem no manicômio eram separados por sexo e desprovidos de suas roupas. Esse era o primeiro constrangimento. Depois passavam por um banho coletivo e recebiam o uniforme. Depois, eram separados por pavilhões de acordo com as suas características e capacidade de trabalho.

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Sem documentos, eram rebatizados pelos funcionários.  O tratamento não era especializado e havia poucos psiquiatras trabalhando. Postos de trabalho eram trocados por votos dados aos coronéis de Barbacena. O hospital era um grande curral eleitoral.

Antônio Gomes da Silva, sessenta e oito anos, foi encaminhado ao hospital aos vinte e cinco. Não sabe porque fora internado em 3 de janeiro de 1969. Passou o tempo todo nu, embora caminhões trouxessem roupa frequentemente. Transferido, em 2003, para uma residência terapêutica, não sabia viver sem amarras. Quase meio século fora do convívio social marcaram-no para sempre. Liberto, tinha todos os dias pesadelos terríveis com eletrochoques e outras torturas.

Geraldo Magela Franco, funcionário aposentado do hospital admite que o tratamento com choques não era terapêutico, mas visava a intimidação e contenção do paciente. Admite também que não havia prescrição. Medicava os internos pela prática, sem nenhum respaldo médico.

O despreparo era tanto, que às vezes caía a energia elétrica da cidade por causa do excesso de choques ministrados.

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A controvertida eletroconvulsoterapia existe desde 1938, para tratamento de doenças mentais. A partir de 2002 foram estipuladas regras para humanizá-la.  No Colônia, ela tinha características semelhantes à tortura. Funcionários, para conseguirem promoção, tinham que aplicar os choques em aulas práticas. Até mesmo os que trabalhavam na cozinha participavam. Numa das aulas, morreram dois pacientes.

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Conceição Machado, aos quinze anos, foi internada por exigir do pai, rico fazendeiro, a mesma remuneração dos irmãos. Pela atitude rebelde recebeu o castigo paterno. Em 10 de maio de 1942, desembarcou do “trem de doido”. Nunca recebeu visita.

Sofreu torturas atrozes por não aceitar a internação, mas tornou-se líder: exigiu médicos, alimentação de qualidade, assistência digna.

Sua luta sensibilizou uma menina, Chiquinha, filha de uma funcionária. O exemplo de garra de Conceição marcou a sua vida. Hoje, Chiquinha é diretora do Sindicato Único de Saúde e representa 20 mil servidoras. Lutou para humanizar a instituição, mas sem êxito. Pensa sempre na sofrida amiga Conceição. Infelizmente, dentro do hospital, apesar de ninguém ter apertado o gatilho, todos carregam mortes nas costas.

II – Na roda da loucura

Fome e sede eram sensações permanentes no local onde o esgoto que cortava os pavilhões era fonte de água. A alimentação era pobre e racionada. Alguns internos comiam bichos do esgoto para matarem a fome.

Passavam a maior parte do tempo no pátio, independente do frio que cortava a pele exposta, pois a maioria vivia nua. Andavam juntos e com os braços unidos, formando uma massa humana capaz de lhes dar algum calor. Os andrajos daqueles que ainda tinham roupas eram queimados formando fogueiras.

 

Os doentes medicavam-se uns aos outros sem remédios. As crises de dores de ouvido eram curadas com panos quentes aplicados sobre os órgãos inflamados sem ajuda médica.  Deixados sem água, muitos bebiam a própria urina.

Os castigos eram uma rotina. Um deles consistia em fazer o paciente mergulhar numa banheira coberta de fezes. Internas grávidas passavam fezes no corpo. Sujas, nenhum funcionário tinha coragem de encostar-lhes as mãos. Assim. Protegiam o filho que estava na barriga.

Em 2003, muitos dos doentes foram transferidos para uma instituição mais humana; receberam até auxílio financeiro do governo federal. Aos poucos, foram se acostumando a ter dignidade.

III O único homem que amou o Colônia

O mestre de obras do Colônia, Raul Ferreira Carneiro, tinha uma vida de exceção no Colônia. Morava no hospício, numa confortável residência, desde a década de 1920. Lá nasceram e foram criados os seus nove filhos.  Dentre esses, o terceiro, Luiz Felipe Cisalpino Carneiro, que viria a ser o futuro administrador do hospital.

Luiz Felipe não entendia, quando menino, porque aqueles internos eram considerados perigosos. Afinal, trabalhavam como mouros construindo, plantando e fazendo estradas. Em 1916, quase metade da receita do hospital fora garantida pelos doentes.

Não pareciam doentes, mas escravos. Proibidos de pisar na Capela Nossa Senhora das Graças, criaram seus próprios altares e rezavam as suas missas. Havia até bispos “loucos”. Felipe aprendeu a respeitá-los.

Um dia, Luís Felipe formou-se médico e foi trabalhar num hospital psiquiátrico de Minas Gerais. Aos oitenta anos de idade, mantém hábitos simples.  Hoje, como administrador do Colônia, enxerga o hospital com um olhar diferente que o faz amá-lo. Faz planos de transformar em memorial o cemitério desativado onde repousam os 60 mil cadáveres “fabricados” pelo Colônia.

IV – A venda de cadáveres

O professor Ivanzir Vieira tinha 34 anos em 1970, quando passou pela porta da Faculdade Federal de odontologia de Juiz de Fora onde lecionava. Sentiu um cheiro repugnante. Entrou.  No pátio interno, havia dezenas de cadáveres espalhados pelo chão em grotescas posições como se tivessem sofrido violência sexual. Não havia alunos, nem serventes, nem professores.

Permaneceu observando a cena sem saber que atitude tomar. Finalmente, um funcionário trouxe a informação de que o diretor havia liberado os professores e os alunos porque a universidade havia comprado aqueles cadáveres que vieram do manicômio de Barbacena.

Além daqueles trinta cadáveres, outros 1.823 corpos foram vendidos pelo Colônia para dezessete faculdades de medicina do país entre 1969 e 1980. Lá, a média de falecimentos era de dezesseis por dia devido às péssimo tratamento que os doentes recebiam.

Em uma década, a venda de cadáveres atingiu quase R$ 600 mil em valores atualizados.  Quando os corpos começaram a não ter mais interesse para as faculdades de medicina, que ficaram abarrotadas de cadáveres, eles foram decompostos em ácido, na frente dos sobreviventes. O objetivo era comercializar as ossadas.  O antigo hospital Colônia teve a última cela desativada somente em 1994.

V – Os meninos de Oliveira

Em 1971, o superintendente de Psiquiatria da Fundação Educacional de Assistência Psiquiátrica visitou o Hospital de Neuropsiquiatria Infantil, no município de Oliveira. Presenciou outro holocausto. Viu um menino amarrado no chão com as mãos e pernas abertas. Parecia crucificado. A freira encarregada justificou alegou que o garoto era violento. O hospital, criado em 1924, recebia crianças alienadas.

A instituição tinha um histórico de atrocidades. Estupros de crianças ocorriam com frequência. Foi fechada, em 1976. Trinta e três crianças foram enviadas para o Colônia, em Barbacena. Lá viveriam uma realidade ainda pior. Na realidade, ali aguardavam a morte.

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Todo o dia morria gente no Colônia, entre os mortos, havia sempre crianças, muitas delas vindas de Oliveira. O tratamento era aviltante, As crianças de Oliveira não tinham roupas de cama suficientes, muito menos roupas. Como os adultos, sofreram com as correntes, os eletrochoques, as camisas de força, o aprisionamento e o abandono. Crianças passavam por cirurgia de lobotomia.

As enfermeiras mais sensíveis, mesmo sendo concursadas, demitiam-se. Levavam na lembrança as expressões apavoradas das crianças que tomavam leite apenas uma vez por semana.

Os bebês ficavam confinados aos berços. Não saíam sequer para tomar sol. Houve casos de crianças do sexo masculino sendo criadas na ala feminina e tratadas como meninas. Alguns pequenos internos não sucumbiam de fome e de frio, mas de tristeza.

VI – A mãe dos meninos de Barbacena

21 de novembro de 1988. Após dezoito anos de luta, Mercês Hatem Osório pôde, finalmente, oferecer aos meninos de Barbacena, agora adultos, o lar que nunca tiveram. Dos trinta e três meninos e meninas enviados de Oliveira, apenas seis sobreviveram. Moram no Lar do Abrigado em Belo Horizonte. Quando chegaram, não sabiam comer, nem ao menos usar o banheiro. Com o tempo, graças a um apoio psicopedagógico especial e à dedicação da irmã Mercês, perderam o olhar vazio e conseguiram assimilar regras de conduta e de higiene. Alguns dos internos levaram até seis meses para aprenderem a usar o vaso sanitário, comer com talheres ou dormirem em colchonetes.

A freira, irmã Mercês, conseguiu milagres. Os antigos meninos de Oliveira, hoje andam vestidos e calçados. Assimilaram perfeitamente outros hábitos sociais graças ao amor de Mercês Hatem Osório, a freira coordenadora da casa amarela.

A freira agiu na comunidade ao perceber que os moradores evitavam até passar em frente à casa amarela. Hoje, os internos são chamados nominalmente pelos vizinhos que lhes dão afagos e presentes.

Mercês recebeu a curatela dos internos. Simbolicamente, passou a ser a mãe dos meninos de Barbacena.

VII – A filha da menina de Oliveira

Em 23 de dezembro de 2005, Débora Aparecida Soares tentou o suicídio. Foi socorrida na Fundação Hospitalar de Minas Gerais, no antigo pavilhão Afonso Pena do Colônia. Ali, nascera e fora criada, filha da auxiliar de enfermagem Jurema Pires Soares. Na infância, correra pelos pátios da instituição, convivendo com as internas que sequer usavam roupas.  Não tinha afinidade com a mãe e isso a constrangia. Com muita luta, aos vinte anos, após sair de casa, Débora passou no concurso vestibular da faculdade Letras de São João Del-Rei.

Fazendo perguntas, descobriu que era filha adotiva. A mãe biológica chamava-se Sueli, uma interna do Colônia.

Depois de romper com a mãe adotiva, procurou Sueli, a menina de Oliveira. Descobriu que ela morrera há um ano. Havia perdido, pela segunda vez, a pessoa que julgava ser a mais importante da sua vida.

Obsessivamente, resolveu reconstituir o passado da mãe. Descobriu que fora tirada dos braços dela dez dias depois de dar à luz.  Foi informada, também, que nos vinte e dois anos seguintes ao parto, Sueli lembrou-se de todos os aniversários da filha, rezando por ela. Soube que o Colônia havia animalizado Sueli, chamada de a Menina de Oliveira, porque fora internada muito jovem.

De dentro do Hospital de Barbacena ela só saiu morta, em 2006, aos cinquenta anos, sem realizar o sonho de encontrar a filha.

Sueli e Débora, sem dúvida, foram vítimas da loucura dos normais.

VIII – Sobrevivendo ao holocausto

Luiz Pereira de Melo, desde pequeno deu mostras de que era muito retraído, pois não brincava como os outros meninos. Tinha dezesseis anos, em 1950, quando a mãe, lavadeira e viúva, pediu ajuda ao hospital Oliveira. Foi a última vez em que ele, hoje com 78 anos, viu a mãe.  Foi hospitalizado apenas por ser tímido. Transformou-se em propriedade do Estado. De Oliveira, o menino foi transferido para o Colônia em 24 de fevereiro de 1952. Em Barbacena, trabalhou como escravo. O que mais doía não era o trabalho, mas as sevícias que sofreu.

Sua mãe, Donana, morreu de saudades, cansada de procurar o querido filho. Luiz reencontrou a irmã, doente e cega num asilo recentemente. Perceberam que os anos podiam consumir quase tudo, menos o amor que guardavam um pelo outro.

Depois de dois dias juntos, os irmãos enfrentaram nova separação. É impossível devolver a eles o que lhes foi negado.

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Adelino Ferreira Rodrigues e Nilta Pires Chaves, outros ex-pacientes do Colônia, tentam, juntos, construir uma nova história. Depois de 30 anos de sofrimento, livres, casaram-se em 2005. A cerimônia foi grandiosa para os padrões do lugar porque contou com a mobilização de toda a comunidade. Venceram, enfim, o preconceito que os marcou por décadas.

Tinha 22 anos, quando deu entrada no Colônia, em 25 de abril de 1969. Adelino tinha certo status porque conseguiu viver às próprias custas e até emprestava dinheiro a juros aos funcionários. Portanto, não era doente mental. Conheceu Nilta, que chegara ao Colônia em 30 de março de 1976, e protegeu-a. Assim, evoluiu o romance.

Mais de duas décadas depois de serem confinados no Colônia, Adelino e Nilta podem se considerar sobreviventes do holocausto.

Após o casamento, na casinha de aluguel decorada com imagens de santos, os dois aprenderam a administrar não só as contas no fim do mês, mas também a própria vida.

IX - Encontro, desencontro, reencontro

Aos quarenta e seis anos, João Bosco Siqueira, o chefe da banda do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, encontrou a mãe, Geralda Siqueira Santiago Pereira, sessenta e dois anos. Aos quinze anos, ela deu à luz João dentro do Colônia de Barbacena. Interná-la foi a alternativa encontrada pelo patrão que a estuprara e não queria assumir o filho.

Depois do estupro, logo a gravidez foi descoberta e familiares do patrão começaram a articular uma saída. A mais fácil foi mandar a gestante para longe, para um local de onde não pudesse mais sair. Foi levada ao holocausto por duas freiras amigas da família. Na entrada do seu pavilhão já deparou com mulheres nuas pisando descalças no chão coberto de fezes. Este era o seu novo “lar”.

No primeiro dia, mesmo grávida, tomou um eletrochoque para “amansar”. João Bosco nasceu em 21 de outubro de 1966. Dois anos depois, Geralda recebeu alta, mas não pôde levar a criança. Conseguiu emprego numa casa de família e via o filho somente nos fins de semana.

Reuniu economias durante um ano, pois desejava alugar uma casa para ela e João Bosco. As freiras transferiram o menino sem avisar e Geralda ficou transtornada. Por isso, levou choques e sofreu ameaças. Saiu. Em uma hora, havia envelhecido décadas.

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João Bosco cresceu num orfanato administrado por freiras no interior de Minas Gerais. O orçamento era curto, mas a alimentação deficiente pelo menos tinha sabor devido à dedicação das ternas irmãs. Não se pode dizer que João não teve amor na infância. A felicidade não era completa para João. Ele era o único dos internos a nunca receber visitas.

Em 1979, ao completar treze anos, Joãozinho mudou-se novamente. Não tinha mais idade para permanecer no orfanato. Ele e outros sete amigos foram transferidos para a Febem. Lá, o destino começou a traçar novos planos para sua vida.

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Geralda tinha completado vinte e nove anos em 1979. Fazia catorze anos que estava sem notícias do filho. Viúva recentemente e com três filhos, passou a fazer faxinas. A família vivia precariamente.

Apesar dos três filhos, ela não conseguia tirar João Bosco da cabeça. A ausência dele fazia o peito de Geralda doer.

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A Febem foi boa para João Bosco. Lá conheceu a música. Esse encontro transformou-o. Entrou para banda de música da instituição. Aprendeu a tocar tuba, instrumento importante para a harmonia. Na Febem aprendeu também a desvencilhar-se do assédio sexual de maus funcionários.

Aos dezessete anos, o rapaz sabia que precisava dar um rumo à vida. Em um ano, teria que sair da Instituição. Conseguiu ficar na Febem até os vinte anos quando foi aprovado no concurso do Estado para fazer parte da polícia mineira. Partiu para Contagem, onde passou pelo período de recrutamento para o Corpo de Bombeiros.

Dois anos depois, João Bosco começou a tocar na banda da corporação. Nos sete anos seguintes, morou no quartel.  Matriculou-se em filosofia, na PUC, em 2005.  Hoje, mais de duas décadas depois de ingressar nos Bombeiros, João Bosco é o chefe da banda. Em 2011, completaria 45 anos. Os integrantes da banda resolveram procurar Geralda e entregá-la ao filho como presente de aniversário.

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Sérgio Luiz, o suboficial da banda encontrou, em Barbacena, Geralda. Quatro décadas e meia de separação estavam para ser encerradas.  Foi difícil para a mulher controlar a emoção. Pelo telefone, o filho Décio disse-lhe que no reencontro estaria junto, pois queria abraçar o irmão.

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João Bosco, chamado ao salão nobre, foi recebido pelo comandante do Corpo de Bombeiros. A banda também estava lá. Imagens foram projetadas num telão e retratavam passagens da vida de João. Ele ficou sem entender o que aquilo significava. De repente o nome da mãe foi citado e Geralda entrou na sala. Eles estavam juntos de novo, como há quarenta e cinco anos.

João Bosco teve a certeza de que nunca mais ficaria sozinho, e, naquele 21 de outubro de 2011, reconciliou-se com Deus.

X – A história por trás da história

Em abril de 1961, o repórter fotográfico da Revista O Cruzeiro, Luiz Alfredo, acompanhado pelo colega José Franco, trabalhou numa reportagem no Colônia de Barbacena. Teve uma experiência inesquecível. Ao abrirem-se as portas, milhares de homens e mulheres sujos, de cabelos desgrenhados e corpos esquálidos cercaram os jornalistas. 

Luiz Alfredo teve a sensação de estar num campo de concentração nazista da Segunda Guerra Mundial. Os homens usavam uniformes esfarrapados ou estavam nus. Alguns bebiam água do esgoto. Nas banheiras coletivas havia fezes e urina em vez de água. Carnes eram cortadas no chão. O cheiro era detestável e atraía urubus. Naquele ambiente promíscuo, viu mulheres, homens e crianças juntos, todos nus. Deparou também com três cadáveres em estado adiantado de putrefação.

Moscas pousavam em cima de mortos-vivos. Os doentes dormiam sobre infecto capim. A reportagem, com cinco páginas, foi publicada em 13 de maio de 1961. Seu título era “Sucursal do Inferno” e comoveu o país. Quanto aos políticos, após o choque inicial voltaram à letargia de sempre. Por sorte, o fotógrafo não se desfez dos negativos.

XI – Turismo com Foucault

Em 25 de maio de 1973, o filósofo francês Michel Foucault viajou para Belo Horizonte, a fim de realizar conferências em hospitais psiquiátricos mineiros. Coube ao psiquiátrica mineiro Ronaldo Simões Coelho acompanhá-lo. Muito respeitado e adepto da desospitalização dos loucos, Ronaldo convidou o mestre para um passeio turístico pelas cidades históricas de Minas. Convite feito, convite aceito. No passeio, o pensador deixou a sua marca, disseminando suas ideias semelhantes às de Ronaldo.

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A influência foucautiana estimulou Ronaldo Simões a subverter a ordem das coisas. Ele denunciou as atrocidades que aconteciam no Colônia de Barbacena. Disse que lá havia um psiquiatra para 400 doentes. Que os alimentos eram jogados em cochos para serem disputados pelos loucos. No lugar, era permitido andar nu e comer bosta, mas era proibido protestar. A denúncia custou-lhe o emprego que tinha na Universidade Federal de Minas Gerais (Fhemig).

Mas as estruturas daquele modelo arcaico já não se sustentavam mais. Abnegados profissionais da área psiquiátrica, entre eles, Ronaldo, comandaram a luta pela humanização do Colônia. Continuaram a denunciar os desmandos e qualificaram o Colônia de “antecâmara da morte”

A batalha que se iniciou na década de 1960, começou a ter resultados em 1979 quando o Conselho regional de Medicina instaurou uma sindicância contra o Colônia. Seu relatório alegava que Faculdades de Medicina, interessadas pelos cadáveres de Barbacena, tratavam os hospitais de crônicos da rede pública como “instituições finais”, numa alusão à “solução final” dos nazistas.

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Naquele mesmo ano, 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia divulgou, em Minas Gerais, os seus trabalhos que levaram à abolição dos hospitais psiquiátricos em sua terra. Visitou Barbacena e comparou o hospício aos campos de concentração nazistas. Em conferências, externou a revolta que sentia. As denúncias colocaram fim à fábrica de cadáveres e ao grande sofrimento humano vivido em Barbacena. Em 1980, as ideias de Basaglia foram acolhidas e inspiraram mudanças profundas. Os porões da loucura, finalmente, começaram a ser abertos.

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O documentário rodado no Colônia intitulado Em Nome da Razão de Helvécio Ratton, filmado em 1979, quase secretamente e em plena ditadura militar, acabou sendo o golpe de misericórdia no modelo psiquiátrico do Brasil.  Recentemente, mais de duas décadas depois, Ratton declarou que o cheiro do Colônia ainda continuava impregnado em sua memória.

XII – A luta entre o velho e o novo

O deputado federal mineiro Paulo Delgado, em 1989, apresentou o Projeto de Lei 3.657 que propunha a extinção progressiva dos manicômios no país. O projeto foi aprovado em 1990, debaixo de acirrada oposição da classe médica e da sociedade em geral.

Em 2001, Paulo Delgado conseguiu a promulgação de um Lei Federal que privilegiava o tratamento em ambulatório dos doentes mentais, evitando-se o seu confinamento. Novamente, houve o protesto enfático de setores importantes da sociedade. Mas, aos, poucos, os defensores da não hospitalização de doentes mentais estão conseguindo importantes vitórias.

XIII – Tributo às vítimas

Em 16 de agosto, dentro do Colônia, foi inaugurado o Museu do Louco que conta com documentos, móveis e instrumentos de tortura a história da instituição. Um verdadeiro tributo às vítimas do irracional tratamento que sofreram os doentes ali internados. Sem contar que muitos foram confinados por divisão de herança, por fumar maconha, brigar com policiais, serem tímidos ou passarem por uma gravidez indesejada.

No começo, Barbacena rejeitou o Museu da Loucura. Afinal, era uma péssima propaganda política para os poderosos da região. Apesar dos esforços em negar a tragédia da qual o Colônia foi palco, o museu é, hoje, o mais visitado por turistas.

XIV – A herança do Colônia

O Colônia foi um campo de concentração, mas houve e haverá outros, como o Carandiru, Candelária, Vigário Geral.  Ontem foram os judeus e os loucos, hoje, os indesejáveis são os pobres, os negros, os dependentes químicos... E, com eles, temos o retorno das internações compulsórias temporárias.

É tempo de escrever uma nova história e mudar o final.

Fim

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Wilton Fonseca é professor de português há 39 anos, leitor compulsivo e colaborador do Vejamos. Encontre-o no Skoob ou por e-mail.