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Resumos de livros

Imperador Cidadão (Resumo de livro)

Postado em 27/10/2013

LIVRO "IMPERADOR CIDADÃO"

AUTOR: ODERICK  J. BARMAN

AUTOR DO RESUMO: WILTON FONSECA

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Apresentação

Quando  D. Pedro II governou,  o país era composto de 19 províncias isoladas que só tinham em comum a língua.

A tarefa fundamental  daquele garoto de 14 anos era transformar aquele aglomerado  em Estado Nação. As realizações de D. Pedro II se continuadas criariam um país poderoso e civilizado. O círculo de poder do país tinha que se submeter ao imperador. Em 1880, conseguiu concluir o Brasil  como Estado Nação administrando com competência estes  círculos do poder. Nesse Estado Nação foi um pouco déspota, pois não se importava  com as opiniões dos outros. Pensava que era feito  de outra fibra e superior a toda gente. Seus conselheiros eram os livros que estudava com afinco  com a intenção de fazer progredir a civilização brasileira. Tinha uma personalidade complexa que ao mesmo tempo incita simpatia, exasperação e respeito.

1

Nascido para governar, 1825 – 1831

Nasceu em 2 de dezembro de 1825, no Rio de Janeiro, filho de D. Pedro I e de Dona Leopoldina, tinha laços de sangue praticamente com todas as casas reais europeias. Era  ancestral de Luís XIV da França e de Carlos V do Sacro Império Romano. A Independência acontecera há pouco tempo. O Brasil tinha a desconfiança dos outros países  da América por ser a única monarquia. Na Europa, apenas a Inglaterra nutria simpatia pelo Brasil. O bebê imperador governaria um país enorme, com apenas três milhões e meio de habitantes, carente de tudo necessário a um país civilizado. Um terço da população era escrava.

Toda a História do Brasil vinha de Portugal, não tínhamos raízes próprias. Em 1807, Napoleão ameaça invadir Portugal. A família real foge para o Brasil, aqui chegando em março de 1808. Em 1815, o Brasil é elevado à condição de Reino Unido ao de Portugal por motivos comerciais. Em 1820, uma revolução em Portugal acaba com o absolutismo e o Brasil tem que se moldar à nova situação. Toda a celeuma obrigou a família real a retornar a Portugal em 1821. D. Pedro I, filho mais velho,  ficou no Brasil como príncipe regente. Portugal monitorava D. Pedro I , suas amizades da plebe,  e reprovava o seu desempenho. O rei exigiu a sua volta a Portugal. A desobediência ensejou a independência do Brasil em sete de setemmbro de 1821. Algumas semanas depois,  foi aclamado D. Pedro I do Brasil. O país tinha que ser construído. Não havia uma constituição, nem códigos de leis, nem sistema de educação, só havia um soberano reconhecido e coroado. O mais urgente era a elaboração de uma constituição. Foi nomeada uma Assembleia Constituinte. Ocorreu muita discussão e os trabalhos não avançavam.

D. Pedro I, ansioso,  dissolveu a Assembleia Constituinte, reuniu assessores e outorgou uma Constituição em 1824. Por ser outorgada, a constituição até que foi liberal, pois previa ministérios, câmara de deputados e o eleitorado incluía a participação de boa parte dos homens livres.”

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A Constituição definiu quatro poderes: o Legislativo, o Moderador, o Executivo e o Judiciário. O Moderador era exercido pelo imperador que podia tomar até medidas de exceção. A Constituição de 1824 era democrática apenas na aparência.

Revoltas pipocavam aqui e ali, nada sério,  mas demonstravam que a Monarquia não estava segura. D. Pedro apelou para as grandes potências. O governo britânico, temeroso de ver seu comércio com o Brasil prejudicado por causa da querela com Portugal, garantiu um acordo que tinha um ponto essencial: a aceitação incondicional de Portugal da independência do Brasil e seu reconhecimento como império.

O Brasil precisava de um herdeiro. Em 1826, nasceu o primeiro filho homem do imperador e da imperatriz Leopodina a sobreviver.

Havia uma séria preocupação: As uniões entre parentes muito próximos eram habituais entre a realeza europeia. Preocupava bastante a herança genética do príncipe. Temores infundados. D. Pedro II revelou-se ótimo governante, um pouco taciturno e sem conselheiros, ao contrário do pai. Buscava nos livros as condições ideais para exercer o poder.

No Século XIX, o rei era um ser especial. O ciclo de vida do monarca – nascimento, infância, cortejo, casamento e morte – ocorria em público, sob o escrutínio do mundo. O rei era divino, sua vida era conduzida com rituais quase religiosos.

Na monarquia constitucional, o poder do rei diminui , mas não se extinguiu. Cada lei, cada decreto, cada nomeação devia ser assinada pelo monarca. O rei precisava ser consultado, cortejado, cativado.

Os imperadores brasileiros, ambos, eram católicos fervorosos. O país possuía ordens de cavalaria e o imperador era o grão-mestre de todas as seis. Havia uma rígida noção de hierarquia e os cargos de nobreza eram concedidos dentro de rígido regulamento. Os nobres proporcionavam ao monarca e sua família companhia, suporte e aconselhamento.

O imperador possuía três residências e deslocava-se frequentemente entre elas: Paço de São Cristóvão (a preferida);  Paço da Cidade e Fazenda Santa Cruz (residência de verão).

A hierarquia era rígida; a mesma deferência dedicada ao monarca era esperada pelo restante da corte, estruturada por rigorosa etiqueta e privilégio hierárquico. D. Pedro I era muito liberal em relação a suas amizades e isto desgastou a hierarquia. A corte e a residência imperial eram uma rede de intrigas em que facções concorrentes colocavam o interesse pessoal em primeiro plano. Dom Pedro I contratou professores de gabarito para os filhos. Queria que eles tivessem uma ótima educação em oposição a ele que era virtualmente mal educado.

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Dom Pedro I contratou novos responsáveis pela educação dos filhos. O novo sistema de supervisão e orientação parece ter prosperado tão bem quanto se podia esperar em uma corte mal organizada. D. Pedro II teve contato com seus pais  em encontros agendados, subordinados aos outros compromissos do casal.  Seus pais não se amavam, o casamento foi motivado por conveniências. Dona Leopoldina sujeitava-se como uma questão de dever tanto às aventuras sexuais  quanto à falta de controle emocional do marido. O imperador amou verdadeiramente  Domitila de Castro Canto e Melo, a futura Marquesa de Santos; chegou a levá-la para a corte onde foi dama da rainha. Conheceram-se em São Paulo em 1822. Dona Leopoldina, em depressão, morreu em 1826. D. Pedro tinha apenas um ano. O imperador teria casado de bom grado com Domitila se esta já não tivesse marido. Ela continuou na corte  gozando do status de mulher do monarca.

O governo de D. Pedro era caótico. O Imperador era por natureza exaltado, excêntrico e emotivo demais para o papel que desempenhava. Por isso, dissolveu a Assembléia Constituinte de 1823.

D. João VI, pai de D. Pedro, morreu em 1826. O soberano do Brasil era o herdeiro natural do trono. Abdicou em favor da filha mais velha, porque não queria entregar o Brasil à sanha de aventureiros interessados em usurpar o poder. Além disso, com a filha, criança, soberana de Portugal, ele poderia governar o país europeu indiretamente.

Para manter-se no poder, D. Pedro assinou tratados que virtualmente submeteram  o país ao jugo de potências mundiais como a Inglaterra. Eram tratados aviltantes e prejudiciais à honra e aos interesses brasileiros.  Assim, de mazela em mazela ficava cada vez mais minado o prestígio do imperador.

1826. Conflito estéril com a Argentina, oposição do legislativo que lutava por mais poder. O imperador consomia muita energia e atenção que deveriam ter sido dedicadas às necessidades urgentes do Brasil. O país não estava tão desprovido: tinha escolas, faculdades, câmara dos deputados e poder judiciário. Urgia limitar os poderes do imperador e de seus ministros e criar fontes alternativas  de autoridade.

O futuro imperador tinha bom relacionamento com os seus empregados mais graduados. Eram a sua família, pois perdera a mãe cedo e o pai não participava ativamente de sua vida. Alguns desses subalternos acompanharam-no durante todo o seu reinado e outros exilaram-se com ele depois da proclamação da república.

O menino foi educado para governar. Todos lhe prestavam deferência. As irmãs eram sempre respeitosas e subservientes em relação ao irmão.

D. Pedro queria casar-se novamente. Seus embaixadores nada conseguiam por causa de seu aberto concumbinato com a Marquesa de Santos.  Afasta Domitila que volta a São Paulo e interna a filha ilegítima num convento em Paris.  Mas, sua reputação era tão ruim que nenhuma casa real lhe oferecia uma esposa. Teve que se contentar com uma moça de status parcialmente real, Dona Amélia, com quem se casou  por procuração em 1829.

Amélia de Beauharnais, nascida em 1812, era filha de Eugène Beaharnais, enteado de Napoleão I,  vice-rei da Itália;  residia na Bavária (Alemanha)  e  não era filha de reis.

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Dona Amélia, madrasta de D. Pedro, era uma jovem morena, de elegância marcante e maneiras afáveis. Ela conquistou o imperador e toda a corte. E o que é melhor: a ordem e a boa educação passaram a fazer parte do Palácio de São Cristóvão. D. Pedro II chamava-a de mamãe. A vida doméstica seguia muito bem, o mesmo não acontecia com a política.

Em 1828, Dom Miguel, irmão de D. Pedro I, desaloja Dona Maria I, filha do monarca brasileiro, do trono português. No Brasil, foi criada a República do Uruguai, diminuindo a extensão do território do país e as finanças chafurdavam num déficit terrível.

D. Pedro enfrentou forte oposição política e a Câmara dos Deputados não o ajudava. Os parlamentares praticamente exigiam a sagração de um imperador nascido no Brasil, o príncipe herdeiro, à frente de um governo provisório.

As ruas do Rio de Janeiro eram cenário de batalhas campais. Os próceres exigiam a mobilização de tropas contra o imperador, para evitar-se novo golpe como o da dissolução da assembleia constituinte. A guarda imperial abandonou o palácio de São Cristóvão, sede do governo, e marchou para o centro da cidade para juntar-se aos revoltosos. Finalmente, chegou da cidade o brado uníssono intimando o imperador a readmitir o antigo ministério.

D. Pedro estava só, nem guarda pessoal possuía.  Então, abdicou do trono em favor do filho de 5 anos. Eram 6 de abril de 1831. No dia seguinte, com D. Amélia e a filha Maria da Glória, partiu para Portugal, tendo antes que aguardar ventos favoráveis a bordo do navio. Sua intenção era lutar contra o irmão Miguel e recuperar o trono de Portugal para a filha.

Enquanto isso, dormia tranquilamente, sem ser perturbado pela agitação da noite, essa criança de cinco anos que se tornara o novo imperador do Brasil.

2

NÃO HÁ SEGURANÇA AQUI, 1831 – 1840

D. Pedro II ficou abalado com a perda do pai e de Dona Amélia que ele considerava mãe. A corte não podia confortá-lo, pois também estava “na corda bamba”, sem a certeza de conservar os cargos, pois movimentos pedindo a República grassavam pelo Rio de Janeiro. Os deputados tratavam de apaziguar os ânimos porque naquele ritmo, seria proclamada a República e eles também ficariam desempregados.

A magnitude da emergência e da falta de qualquer alternativa prática ao regime em vigor tornou o jovem imperador indispensável aos políticos.

Em 9 de abril, os regentes provisórios providenciaram a ida do pequeno imperador de 5 anos à cidade. Queriam testar a reação popular. A recepção foi calorosa. Esqueceram-se as desavenças. Todos queriam acarinhar o menino. As pessoas aplaudiam-no calorosamente, afagavam-no com carinho e beijavam suas mãos e até o seu rosto. A multidão o conduziu à capela imperial carregado em seus ombros. A estratégia dos regentes foi vitoriosa. Foi uma espontânea cerimônia de aclamação do primeiro imperador brasileiro nascido em solo tupiniquim.

Após a missa, o pequeno imperador foi levado pelos regentes a Palácio. A cerimônia, desorganizada, segundo o embaixador austríaco foi triste e desagradável.

Em 13 de abril de 1831, D. Pedro, finalmente parte para Portugal. Os revoltosos, aos poucos depõem as armas. O Legislativo reuniu-se em dois de maio para a escolha dos três regentes que governariam em nome de D. Pedro II até ele completar 18 anos em 1843.

Dom Pedro II sentiu-se desamparado. A partida de seu pai, de sua madrasta e da irmã mais velha, Maria da Glória, teve o efeito de destruir sua família. O impacto foi severo. A criança cresceu sem laços  familiares, sem ambiente íntimo. O jovem soberano tinha acesso apenas a ambientes formais; foi-lhe cortado o contato família, íntimo, que tanto bem faz ao governante para desestressar-se.  O soberano, por definição vive em ambientes formais.

Antes de partir, D. Pedro tomou duas providências: dilapidou o ouro e a prata do palácio e nomeou José Bonifácio de Andrada e Silva tutor dos filhos. Os regentes governavam pelo Imperador e o tutor zelava pela sua formação. José Bonifácio foi o escolhido por ser um inveterado monarquista. Com ele, caía o risco do país se transformar numa república.

José Bonifácio não era bem visto na corte devido à sua ambição e  ao nepotismo junto aos  irmãos. Além disso, a sua idade, 70 anos, na época era provecta. Ele vivia em constantes problemas de conflito de gerações além de demonstrar sintomas de senilidade..

O Legislativo contestava a autoridade de Dom Pedro para nomear um tutor, pois este dispositivo não era contemplado pela constituição.

Da Áustria, Francisco I torcia pelo pior. Afinal, ele vislumbrava a possibilidade de governar o Brasil, na qualidade de avô do neto menor de idade.

José Bonifácio conseguiu ratificar o seu nome no Legislativo. Apesar de ranzinza, ele tinha muito prestígio.

Em consequência de seu autoritarismo , a vida na corte tornava-se cada vez mais inquietante e tomada por facções. Num ambiente de intrigas e de defecções forjou-se a vida política de D. Pedro II.

As crianças eram testemunhas de intrigas e de traições , discutidas em sua presença sem o menor constrangimento. Não bastasse o caldeirão da corte, ainda havia a imprensa que forjava artigos contra José Bonifácio.

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A pusilanimidade da corte influiu na personalidade de D. Pedro. Foi uma criança pouco expansiva, voltada para si mesma. Seu pai, de longe, insistia para que D. Pedro II se instruísse numa tentativa de transformar o seu temperamento pela educação. O aprendizado e acima de tudo, os livros revelavam à criança outra existência, mais amistosa. Ele gostava de estudar e aos seis anos já lia em português, inglês e francês. Pela leitura e pelo estudo D. Pedro II se defendia do ambiente perverso em que vivia.

A corte era um ambiente inseguro  e as crianças participavam dessa insegurança sem reservas. Para culminar, falece Dona Paula, irmã do imperador. A morte dela intensificou o sentimento de insegurança das crianças.

Enquanto isso, a regência ia mal e desconsiderada pelo povo. Cogitou-se a volta de D. Pedro ao Brasil, na condição de regente do filho. Os Andradas, entre eles José Bonifácio, apoiavam a iniciativa.

José Bonifácio via conspiração em tudo. A vida das crianças, por isso era um inferno. Viviam reclusas, sem exercitarem-se, alimentando-se mal e  tendo uma existência tensa, mudando de palácio para palácio sem se fixarem. José Bonifácio criava um terrorismo desesperador na cabeça dos pequenos.

Sobre o imperador, o embaixador austríaco, Daiser, notou, em 1833, que a palidez de sua pele  não indicava saúde  e que as crianças não faziam nenhum exercício durante os seis meses do ano em que residiam  na cidade.

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José Bonifácio continuava com a sua mania de perseguição, incutia nas crianças um grande ódio por todos os que formavam o governo. Os príncipes sequer olhavam para os regentes e para os ministros.

José Bonifácio substituía constantemente os empregados lotados ao dispor do imperador, suspeitava de conspirações do governo e tornava a vida dentro do castelo tensa. Essas pressões físicas e emocionais afetaram o jovem imperador que passou a ter problemas graves de saúde, até epilepsia.  Cogitou-se a volta de D. Pedro. Mas, este vencera a querela com o irmão, Dom Miguel; Dona Maria I reassumiu o trono português. Estamos no final de 1833. No Rio de Janeiro, todos estão convencidos de que  D. Pedro I retornará, mas ele deixou claro que somente uma requisição formal do governo faria que ele passasse a atuar como regente do seu filho.

Animados com a recusa de D. Pedro I, os regentes destituíram, em 14 de dezembro de 1831, José Bonifácio de Andrada e Silva, substituído pelo Marquês de Itanhaém. Somente com a presença ostensiva do exército, José Bonifácio entregou o cargo. Mas, não fez pacificamente: Foi preso, mantido sob custódia e removido para o seu quarto. Depois, foi transferido para prisão domiciliar na Ilha de Paquetá.

Dona Mariana de Vernes Magalhães foi readmitida como governanta do imperador pelo ministro da justiça, Aureliano de Sousa e Oliveira Coutinho. Houve total reformulação do quadro de funcionários e os meninos foram transferidos para o Palácio da Cidade.  O imperador foi avesso às mudanças e desenvolveu um temperamento taciturno. Mais tarde, ele confessou: “Meu estilo de vida durante minha infância me fez tímido.”

A vida das crianças melhorou, pois já não havia a rabugice de José Bonifácio. Agora,  as crianças exercitavam-se e alimentavam-se bem.

A epilepsia de Dom Pedro preocupava, mas era de um tipo que se curava espontaneamente, com o tempo. Mas a ciência ainda não havia descoberto este particular.

No início do Século XIX, quando o  complexo de condições conhecidas em conjunto como epilepsia era um mistério médico, provocava  considerável temor, pois era tudo como uma doença mental. O palácio não queria que notícias sobre o estado de saúde do imperador pudesse  dessiminar-se para o povo e por isso eram evitados contatos dele com o mundo externo.  Temia-se que o jovem monarca sofresse  de alguma afecção mental que o impediria de governar. Nesse quadro, o tutor, Marquês de Itanhaém,   portou-se debilmente e deixou que a governanta Dona Mariana, o mordomo Paulo Barbosa e o Ministro da Justiça Aureliano de Sousa influenciassem o comportamento do imperador nos próximos doze anos a partir de 1833. Nada podia ser feito na corte sem a aprovação desse trio.

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A  aliança entre Aureliano, D. Mariana e Paulo Barbosa com o Marquês de Itanhaém como seguidor, rapidamente assegurou-lhes o domínio dos assuntos da corte e da casa: eles formaram verdadeira facção.

Somente nos seus estudos, D. Pedro II sentia-se livre da pressão que o atingia da parte de seus cuidadores.  Seu aio, Frei  Pedro de Santa Mariana,  incentivava-o e o imperador foi-lhe grato por toda a vida. O amor nato do jovem príncipe pelos estudos tornou-o ávido por aceitar o equilíbrio entre conhecimento e capacidade, sabedoria e comportamento civilizado. Os livros e os estudos compensavam os aborrecimentos externos e a virtual ausência de qualquer vida social – e de quaisquer companhias de sua própria idade, além das duas irmãs remanescentes. O imperador precisava de um irmão. “Adotou” Ferdinand de Sax-Coburgo-Gota, que se casara  com sua irmã mais velha, Dona Maria II, em 1837, quando D. Pedro  tinha 11 anos. Correspondeu-se fraternalmente com ele até a morte de Fernando em 1885.

O Marquês de Itanhaém, tutor desde 1833, desenvolveu dois pontos na educação do jovem imperador: protegê-lo do contato físico e emocional com o mundo externo e encorajá-lo a ter sede de conhecimento. Teve poucos amigos, mas soube conservá-los por toda a vida.

Em fevereiro de 1838, D. Pedro II participou de um treinamento de guerra com o príncipe de Joinville, filho do rei da França, no litoral próximo ao palácio de São Cristóvão. Este foi um dos poucos momentos em que o imperador se sentiu realmente livre feliz.

Seu gosto pelos estudos e a companhia quase constante de homens adultos tornaram-lhe ao mesmo tempo sério e presunçoso demais para a sua idade (11 anos).

O jovem imperador, uma criança  obesa e desajeitada aguardava a maioridade que só viria em 1843. Enquanto isso, a regência não agradava ninguém. Movimentos pedindo a volta de D. Pedro “pipocavam” aqui e ali. A morte do antigo imperador por tuberculose em Lisboa em 24 de setembro de 1834, frustrou esses planos.

Com a morte de D. Pedro, floresceu um movimento liderado pelo marquês de Paranaguá, pedindo que fosse antecipada a maioridade do imperador.

Três facções integravam o governo: Os monarquistas conservadores que estavam satisfeitos com o governo e queriam a antecipação da maioridade do imperador; os nativistas que aceitavam a monarquia como um mal necessário e gostariam do retorno de D. Pedro na qualidade de regente do filho e, os mais radicais, os republicanos que pregavam a proclamação da república. Nativistas e Republicanos pretendiam diminuir o poder do monarca e achavam que a missão do governo era proteger as províncias de ataques externos, assegurar a sua ordem interna e prover-lhes receita.

O Padre Feijó, o mais eminente nativista liderava essa campanha pela causa da liberdade e do federalismo. Os republicanos, em sua maioria, estudaram em Coimbra, vivenciaram o absolutismo português. Na realidade, eram monarquistas, só não aceitavam a volta de D. Pedro.

A nação brasileira era muito grande e jovem, precisava de instituição  que lhe desse  a uniformidade de um estado independente. A figura do imperador servia a este mister, pois representava  a existência de uma nação. Por isso, o apoio organizado ao republicanismo já nascera agonizante.

O federalismo surgiu como uma defesa contra D. Pedro I. Se este voltasse como regente do filho, não teria poder absoluto porque o governo estaria distribuído entre as províncias autônomas. Em 1834, a Câmara dos Deputados estabeleceu que haveria apenas um regente para o jovem imperador e uma Assembléia Legislativa em cada província. Esta foi a mudança mais importante.

Seis semanas após, o causador de toda a mudança, D. Pedro I, faleceu em Lisboa, em 1834. De repente, todas as forças políticas pleitearam o retorno à ordem anterior. Defendiam o “retorno à ordem e à autoridade”. Enquanto isso, o país vivia clima de guerra civil com grande parte das províncias entrando em luta armada para defender as suas prerrogativas. Somente em 12 de outubro de 1835, Diogo Antônio Feijó assumiu o cargo de regente do imperador. Feijó revelou-se tão resoluto e intransigente na defesa de suas prerrogativas quanto D. Pedro. Não prestava contas a ninguém; foi verdadeiro déspota. Floresceram movimentos para depor Feijó ou coagi-lo a renunciar.

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Cogitava-se a renúncia por desgosto ou o impedimento legal por violação à Constituição,  para livrarem-se de Feijó. O Ministro Vasconcelos, grande reacionário, em 1835, tentou declarar a princesa Januária regente em nome do irmão, mas as premissas aceitas na época sobre a incapacidade nata feminina inviabilizaram a ideia. Em desespero votou-se a maioridade, o imperador tinha 11 anos. O projeto não foi vitorioso.

Ao final de agosto de 1837, Feijó havia perdido toda a vontade de continuar no poder. Em 18 de setembro, renunciou. Araújo Lima, Ministro do Interior, assumiu a regência interina. Sua primeira providência foi restaurar toda a pompa do imperador. Até a cerimônia do beija-mão foi restaurada. Em 2 de dezembro de 1837, o décimo segundo aniversário de Sua Majestade foi celebrado com muito mais pompa do que em anos anteriores. Em todos os lugares, o jovem imperador era recebido com sinais de respeito e de apoio.

O movimento de apoio  ao regresso do não federalismo foi ressuscitado. Os próceres do país queriam uma monarquia constitucionalista em que o soberano não teria plenos poderes. Em suma, pleiteavam a sagração de um imperador cidadão. As campanhas de respeito público ao jovem imperador proliferavam; os seus retratos enfeitavam as paredes das Assembleias Legislativas das províncias. D. Pedro II não podia senão crer que o mundo girava em torno dele. Ele dava ordens e esperava que elas fossem cumpridas de imediato.

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O imperador perdeu a capacidade de discutir porque ninguém de si discordava nunca. O isolamento marcou a sua personalidade. O distanciamento, a falta de intimidade com outros seres humanos originaram-lhe um pavor, adquirido na infância, da possibilidade de traição e abandono que tal contato poderia acarretar.

Em março de 1838, Araújo Lima foi eleito regente, facilmente. As províncias, de forma geral, eram contra o Regresso (ou seja, absolutismo) e as revoltas aconteciam.

O chefe do gabinete dos ministros, Vasconcelos, era o fator de discórdia. Sendo abertamente favorável ao Regresso, semeava conflitos nas províncias que não queriam perder o poder que detinham desde a abdicação de D. Pedro.

Ele era também o grande inimigo dos servidores do palácio. Chegou a arquitetar a total substituição deles.  A situação ficou insustentável e Alencar renunciou em 18 de abril de 1839 deixando o país envolto em séria crise política com a sublevação de várias províncias.

Nesse clima, cresce a adesão pela antecipação da maioridade de D. Pedro II.

Em 2 de dezembro de 1839, o imperador completou 14 anos. Na ocasião, foi fundado o Clube da Maioridade com amplo apoio da população.

Inaugurou-se o Clube da Maioridade. A pressão para que o corpo legislativo desse um suprimento de idade para o imperador recrudescia. O Presidente do Clube era Antônio Carlos Andrada e o vice, Holanda Cavalcanti. Corria o ano de 1840.

A grande beneficiada pela maioridade seria a corte que passaria novamente a comandar o país, como o fez até 7 de abril de 1831. A Casa Imperial se tornou um berço de intriga política. Em 9 de maio, os membros do Clube concordaram que um projeto de lei declarando o imperador maior de idade deveria ser apresentado ao senado. Concorreram dois projetos. O primeiro dava a maioridade para D. Pedro pura e simplesmente, o segundo instituía um conselho privado de dez membros que governaria com o imperador.

O regente Araújo Lima não tinha qualquer intenção de agarrar-se ao posto. Era favorável à maioridade. Formaram-se dois grupos. O primeiro pela imediata decretação da maioridade; o segundo, exigindo que os próximos deputados eleitos promulgassem a lei. Com isso, a maioridade teria que esperar dois anos, até 1842. O Deputado Carneiro Leão, de Minas Gerais, defendia esta proposta. Surpreendentemente, dois meses depois ele retirou o seu projeto de lei. O clima era de guerra civil e D. Pedro II, após reunir-se com pessoas de sua confiança optou pela maioridade imediata.

Na manhã seguinte, 23 de julho de 1840, os legisladores, comandados pelo Marquês de Paranaguá, declararam a maioridade de D. Pedro II. Na mesma tarde ele fez o juramento. Tinha início o reinado de D. Pedro II.

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3 – SALVADOR DE SEU PAÍS, 1840 a 1845

O país estava em júbilo. O Imperador era uma unanimidade. Havia, agora, uma autoridade única, dotada de legitimidade herdada, posicionada acima de interesses partidários e pessoais.

O imperador mostrava competência, preocupava apenas a sua falta de desenvoltura social.

Nos cinco anos que se seguiram, três questões fundamentais dominariam sua vida: seu casamento e o de suas duas irmãs e o nascimento de um herdeiro para o trono; a criação, ou melhor, o restabelecimento de uma corte apropriada; e o controle dos assuntos governamentais.

Seu casamento e o nascimento de herdeiros era crucial. Uma esposa da alta realeza europeia era desejável.

O imperador tinha duas funções principais: supervisionar a vida política e representar a nação. Em ambos os casos era muito importante uma corte competente que auxiliasse nas decisões e proporcionasse o necessário relaxamento ao jovem imperador.

D. Pedro II reabilitou o poder moderador do monarca que podia até dissolver a Câmara dos Deputados. Como chefe desse poder, D. Pedro II não devia explicações a ninguém. O primeiro gabinete ministerial foi formado pelos irmãos Andradas sobreviventes (Antônio Carlos e Martim Afonso), Holanda Cavalcanti e seu irmão Francisco de Paula Holanda Cavalcanti e seu outro irmão Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque, Antônio Limpo de Abreu e Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho. Era um gabinete multirracial, atestando um dos traços mais admiráveis de D. Pedro II – sua falta de preconceito racial.

Dom Pedro era tratado com extremo respeito. A verba da corte teve um reajuste considerável para transmitir à população uma imagem suntuosa e impressionante. A etiqueta da corte também evoluiu e graças ao Barão Daiser foi copiada da austríaca. A etiqueta era rigorosa, com uniformes, regras de precedência e horários rígidos. Toda essa atividade era considerada por alguns o dispêndio de um bocado de tempo e energia com algo pouco substancial em prejuízo de assuntos de governo relegados a segundo plano.

Os ministros deixavam o imperador numa “redoma de vidro”, dificultando o seu acesso a outros políticos e à população. Na verdade, tinham o receio de que o imperador encontrasse pessoas mais bem preparadas do que eles.

A eliminação de rivais, fossem reais ou potenciais, criou um “cordão sanitário” em torno de D. Pedro II.

Uma intensa agenda de atividades, orquestrada pelos ministros e por Paulo Barbosa, atingia o objetivo de manter o imperador isolado e sem saber que estava sendo manipulado.

A vida de D. Pedro II era muito movimentada e ele não se queixava, pois gostava dessa rotina. Ele não interferia na tomada de decisões, exceto em alguns casos de patronagem.

O imperador tinha porte adulto. Chegou a medir 1,88m, mas o amadurecimento emocional foi mais lento.

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Ao mesmo tempo em que o menino imperador se via como centro do mundo, também reconhecia quão transitório, tolo e irreal era esse mundo. Depreende-se isso dos registros de seu diário do ano de 1840 onde havia certa desilusão e fina ironia sobre as suas prerrogativas.

Os ministros eram notadamente mais bem sucedidos em administrar os assuntos do país do que em manobrar o imperador. Entre outros fracassos, não conseguiram pacificar a província do Rio Grande do Sul. Os constantes fracassos expuseram as latentes divisões existentes e o ministério ficou dividido em facções. O ministério estava em completa anarquia graças  principalmente aos desmandos  dos irmãos Andradas.

Em março de 1841, os Andradas são obrigados a deixar o governo, pois não tinham mais ambiente. O novo gabinete mostrou-se competente e foi muito útil ao imperador.

Na sua coroação, D. Pedro portou-se muito bem, criou o Hospital D. Pedro II para alienados, além de autorizar  diversos atos de beneficência. Daí o seu epíteto: O Magnânimo.

Desde os primeiros dias de governo, D. Pedro II conseguia ouvir e avaliar argumentos contrários e era tenaz  em manter um curso de ação escolhido, uma vez tomada a decisão. Os Andradas, desalojados do poder, tentavam desestabilizar o ministério, entretanto, as medidas  que o governo defendia, na maior parte das vezes eram promulgadas.

Uma lei reinstituiu o Conselho de Estado, um órgão consultivo, que ajudava o imperador a utilizar o seu poder moderador. O Conselho também interpretava a Constituição quando necessário.

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Aos poucos, o gabinete do imperador foi controlando todos os aspectos da vida do país. A única área em que o sucesso escapava ao gabinete era encontrar cônjuges para o imperador e suas irmãs.

Estava difícil: A juventude do imperador era o principal obstáculo. Enfim, foi oferecida uma princesa da família Bourbon de Nápoles: Teresa Cristina Maria, irmã mais nova do rei Fernando II de Nápoles. De contra peso, foi acertado o casamento da Princesa Januária com um irmão de Teresa Cristina, Conde de Ávila.

O gabinete ministerial enviou à Câmara projetos que aumentavam o poder do rei, e do próprio gabinete, em detrimento dos municípios e das províncias. A oposição arquitetou eleger maioria na Câmara dos deputados e não contemplar os projetos. Em primeiro de maio de 1842, D. Pedro simplesmente dissolveu a câmara na véspera de sua abertura formal. Usou o que lhe facultava o poder moderador.

Revoltas aconteceram em São Paulo e Minas Gerais. Luís Alves de Lima e Silva, na época Barão de Caxias, sufocou-as.

D. Pedro II, aos dezessete anos ainda era imaturo emocionalmente. Mesmo assim, em 13 de agosto de 1842 foi ratificado o acordo nupcial. Os Ministros iniciaram, então, os preparativos do transporte da Imperatriz para o Rio de Janeiro.

Vitorioso sobre as revoltas, o ministério organizou sistematicamente as eleições realizadas no final de 1842, de modo a garantir a vitória de candidatos de sua preferência. O governo estava forte.

23 de janeiro de 1843, crise no gabinete e renúncia coletiva. Carneiro Leão, futuro Marquês de Paranaguá, sem ser primeiro ministro, exerceu real autoridade nas câmaras alta (senado) e baixa (câmara dos deputados) por causa de seus dons de oratória. Esse gabinete foi muito bem administrado inclusive nas relações internacionais. Ainda em 1843, o príncipe de Joinville, filho mais novo do rei Luís Felipe da França enamora-se da princesa Francisca. Em 13 maio, casaram-se e viajaram para a França. Joinville passou a atuar como agente da confiança do imperador na Europa. Restou-lhe como companhia apenas a irmã Januária. Sua solidão aumentou.

Dom Pedro II casa-se por procuração em 30 de maio de 1843. Resta apenas a cerimônia religiosa. Quando a esquadra entrou no porto do Rio de Janeiro, em 3 de setembro, os cônjuges ignoravam a aparência um do outro a tal ponto que eram completamente estranhos. O primeiro encontro foi constrangedor para D. Pedro que não simpatizou com a noiva que na realidade não era bonita. A princesa ficou feliz ao ver o jovem alto e bem constituído, de cabelos louros, olhos azuis e bastante atraente.

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O Imperador não teve boa impressão da esposa. Na verdade, rejeitou-a e não conseguiu disfarçar.

A cerimônia religiosa foi simples e parecia que D. Pedro II havia superado o trauma.

Uma das finalidades principais do casamento era produzir herdeiros ao trono. A imperatriz engravidou em junho de 1844, dez meses após o casamento.

D. Pedro tratava mal a esposa e a imperatriz suportava esse tratamento com infindável paciência e bom humor.

Aos poucos, o imperador foi conquistado e graças à esposa aprendeu italiano e tornou-se apreciador da boa música. A intimidade física, a crescente reserva de experiências compartilhadas e interesses comuns uniram o casal num casamento feliz.

Se a vida conjugal ia bem, o mesmo não se podia dizer da política. O gabinete que Carneiro Leão havia formado, em 23 de janeiro de 1843, não aceitava a concessão de qualquer anistia aos revoltosos de 1842, apesar do clamor geral. A intransigência do Gabinete fez que perdessem a boa vontade de muitos que até então eram simpatizantes do ministério.

Aureliano Coutinho, seu irmão Saturnino de Sousa e Paulo Barbosa, o mordomo, tornaram, por motivos pessoais, o gabinete inadministrável. Em janeiro de 1844, o gabinete inteiro demitiu-se e D. Pedro aceitou de imediato a demissão coletiva.

A partir de 1842, cresceu a influência política do mordomo Paulo Barbosa. Desfrutava a amizade do imperador e tinha grande senso de organização. Políticos em conflito com ele constatavam que as suas carreiras não prosperavam. A partir de 1843, a residência de Paulo Barbosa servia como ponto de referência dos descontentes com o ministério. O novo gabinete era claramente dependente da boa vontade de Paulo Barbosa e de seu círculo. Os ministros só tinham uma preocupação: manter no poder aquele fraco gabinete e as intrigas proliferavam.

No campo pessoal, Dom Pedro brigou com o cunhado, o Conde de Áquila, casado com a sua irmã, Princesa Januária. Ele era irmão da Imperatriz. O Imperador não gostava do cunhado que era extrovertido demais e preferia o entretenimento ao estudo e o prazer ao dever.  A irmã e o cunhado não foram convidados para a festa de primeiro aniversário de casamento do Imperador.

Facções em disputa na corte estavam mais do que ávidas por explorar esses conflitos familiares. O Conde queria, juntamente com seu grupo, uma posição proeminente na corte. Para isso, teria que afastar o todo poderoso Paulo Barbosa. Nada na personalidade do mordomo sugeria que ele se submeteria a tal tratamento, ou toleraria a existência na corte de uma autoridade que rivalizasse com a sua própria. Esse conjunto de fatos precipitou a ida do casal para a Europa.

 

4.                                          ASSUMINDO O PODER, 1845 – 1853

Dois de Dezembro  de 1844. Dom Pedro completa 19 anos e atingiu o ponto mais crítico de seu reinado. Sua conduta em relação à irmã, Princesa D. Januária, e ao marido, Conde de Áquila, revelaram-no alienado, presunçoso e imaturo.

Ele foi muito atacado pela expulsão do Conde e da Princesa, pois a corte precisava de nobres de alta envergadura para angariar respeito.

Se o imperador falecesse, a monarquia ficaria em xeque, porque as sucessoras estavam a meses de viagem do Brasil. As duas irmãs de D. Pedro II, em 1860, estavam exiladas de seus reinos, Nápoles e França, e o imperador não se importava. D. Pedro II não fez nenhuma tentativa de encorajar qualquer dos casais ou suas proles a se mudar para o Brasil, e, dessa forma, tomar parte da Família Imperial. Os Áquilas e os Joinvilles jamais voltaram ao Brasil. O imperador não se importava com o distanciamento. Em suma, não “curtia” nem a família, nem a corte.

Era incapaz de enfrentar Paulo Barbosa da Silva, o mordomo. Os brasileiros pareciam estar diante de um reino repleto de animosidades, problemas mal administrados e submissão a protegidos.

No final da década de 40 ocorre grande mudança. D. Pedro torna-se um governante culto, maduro e respeitado no Brasil e na Europa. Começou a cultiva a grande barba, sua marca registrada e identificou-se com a modernidade e com o domínio da arte da política.

Em fevereiro de 1845, nasceu seu filho, Príncipe D. Afonso. O nascimento rompeu o isolamento emocional do monarca que se tornou um homem afetivo. Nasceram mais três crianças: D. Isabel, D. Leopoldina e D. Pedro, em 1846, 1847 e 1848 respectivamente. A prole uniu D. Pedro II e D. Teresa Cristina em um relacionamento muito afetuoso.

O país pacificado, em 1845, teve reintegrado o Rio Grande do Sul ao Império graças ao Barão de Caxias. Lá, o imperador passou seis meses em visita.  Foi muito bem recebido graças à mudança de seu temperamento que o transformou num homem afável.

O adolescente moroso, desajeitado e desconfiado havia sido substituído por um homem encantador e capaz de deixar as pessoas à vontade.

Em 25 de dezembro de 1845, D. Pedro II livrou-se do mordomo Paulo Barbosa, nomeando-o Ministro do Brasil na Rússia. A ausência do mordomo deu ao monarca maior liberdade de ação e a oportunidade de tornar o governo mais calmo.

A retirada de Paulo Barbosa para a Europa e a saída de Aureliano Coutinho da Presidência do Rio de Janeiro fortaleceram D. Pedro II. O Imperador continuou sendo amigo das duas personalidades. Era grato a eles por terem concebido a cidade de Petrópolis à feição de urbes europeias. O clima temperado do local e sua povoação por imigrantes alemães tornaram plausível esse pequeno pedaço da Europa recriado no Brasil.

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Em outubro de 1845, a colônia já estava ativa, com mais de 400 famílias alocadas. Petrópolis: Terra de Pedro. D. Pedro II sempre adorou a cidade e seus restos mortais lá repousam.

D. Pedro II, homem de temperamento refinado, sentia-se muito bem naquele cenário europeu, uma cidade branca, industriosa e alegre.

O imperador era ávido leitor, mas se interessava por todos os tipos de arte. Em termos artísticos, era eclético. O monarca era excelente fotógrafo e ele mesmo revelava os negativos.

No final da década de 1840, encontrou a sua missão na vida: o conhecimento que adquirira, aplicaria para o benefício e o progresso de seu país. Seria o cidadão modelo do Brasil. D. Pedro II, para incentivar o conhecimento, procurou fortalecer e influenciar as instituições que educavam os jovens. Prestigiava, com o seu comparecimento as cerimônias das faculdades e escolas brasileiras, estabelecendo uma identificação entre escola e cidadania.

Politicamente, D. Pedro propiciou a existência de verdadeiros partidos políticos em vez de meras facções. Havia partidos da situação e da oposição com propósitos definidos e sem sofrerem pressões por parte do executivo. O imperador formava gabinetes democráticos.

D. Pedro II reconhecia a autonomia do legislativo quanto a legitimidade do sistema de partidos. O Presidente do Conselho de Ministros selecionava os colegas, anunciava o programa do gabinete ao legislativo e mantinha a solidariedade entre seus companheiros ministros.

Entre 1847 e 1848, D. Pedro II deleitou-se em viajar pelas províncias. Esbanjava simpatia e andava com pequena comitiva, sem a rainha que estava sempre grávida.

Ele era invariavelmente cortês, gentil e paciente. Mantinha as emoções  sob disciplina férrea. Jamais era rude e nunca perdia a calma.

Em meados de 1848, três crises colocaram o imperador à prova: Com a Grã-Bretanha sobre o comércio de escravos, com a região Nordeste provocada por uma grande revolta interna e com uma guerra no Rio do Prata. A saída triunfal do regime deve ser atribuída ao imperador, cuja cabeça fria, tenacidade de propósitos e senso de plausibilidade provaram-se indispensáveis.

Nessa época, a Europa estava convulsionada. A França chegou a adotar a República como sistema de governo. O Brasil foi contaminado por uma onda federalista que provocou revoluções por todo o país, inclusive a famosa Revolução Farroupilha  no Rio Grande do Sul.

O Imperador formou um gabinete conservador, constituído de homens extremamente capazes e conseguiu administrar os conflitos. Por fim, os rebeldes atacaram Recife, em 2 de fevereiro de 1849, mas foram decisivamente derrotados. D. Pedro mostrou ser um Imperador competente e a monarquia solidificou-se.

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No final das crises, o imperador foi enaltecido dentro e fora do país. O jornal Ilustrated London informou a seus leitores que “D. Pedro II era um governante plenamente informado de todos os segredos da política em questões internacionais, bem como nas questões de partido criadas pelo mecanismo constitucional. Os brasileiros de qualquer classe falam de seu soberano com orgulho.”

O herdeiro D. Afonso morre em 1847 com dois anos, de convulsão. Intrigante é que a rainha parou de ter filhos logo naquele momento em que o império precisava urgentemente de um herdeiro. Parece que o romance entre D. Pedro II e a bela viúva Maria Leopoldina Navarro de Andrade o fez desviar-se de seus deveres conjugais.

A verdade é que o imperador parou de gerar filhos. A jovem Princesa Isabel era a sua herdeira legal, mas isso contava pouco. Precisava de um sucessor homem. Havia o iminente perigo de que o regime imperial se encerrasse com D. Pedro II.

O imperador que teve um começo claudicante, de repente tornou-se um grande estadista.  A morte do filho e o provável fim das relações sexuais com a esposa fizeram D. Pedro II encarar de forma diferente o seu destino. Não pensava em sucessão, mas entendia o regime imperial como uma emanação de si para si. Comportar-se-ia apenas como devotado servo da Constituição, agindo como um autêntico imperador cidadão, indiferente a questões menores como a sucessão. Isso ocorreu em 1853 e o país atravessava um período de paz e de prosperidade.

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