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Resumos de livros

O olho da rua (Resumo de livro)

Postado em 26/01/2014

LIVRO "O OLHO DA RUA"

AUTORA: ELIANE BRUM

AUTOR DO RESUMO: WILTON FONSECA

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A floresta das parteiras (Reportagem de 27/3/2000)

No interior do Amapá as analfabetas parteiras da floresta lembram ao país que nascer é natural. Não depende de engenharia genética e de outros conhecimentos.

Maria dos Santos Maciel, a Dorica, uma parteira de 96 anos diz que ser parteira é um dom ao qual não se pode dizer não. Diz que “parteira não tem escolha, é chamada nas horas mortas da noite para povoar o mundo.” Ela não teve filhos.

Dos mais de dois mil partos, Dorica só perdeu três e ela lamenta-os. Sem nada cobrar faz os seu trabalho com rezas, simpatias e mais ações vindas da sabedoria popular e sem cobrar nada.

Aos 77 anos, Jovelina Costa dos Santos é a parteira mais afamada de Ponta Grossa do Piriri, triste povoado a cem quilômetros de Macapá.

Está sempre sorrindo e esbanjando ditos populares. Ama o seu ofício, apesar de viver em estado precário de subsistência. Como Dorica, também é intuitiva, não tendo nenhum conhecimento técnico da arte de “povoar o mundo”.

Rossilda Joaquina da Silva, 63 anos, onze filhos, vinte netos e quatro bisnetos. Acha o parto uma festa e não entende como na cidade é feito em hospital. Para ela, hospital é lugar de doente e o parto não é uma doença. Mora e trabalha no quilombo do Curiaú, nos arredores de Macapá. O morador de Curiaú gosta de cantos, pois era preciso cantar no tronco para não sucumbir ao desalento no tempo da escravidão.

Teresa Bordalo, 51 anos, cinco filhos e cinco netos. Exerce a profissão com muito mistério, rezando, cantando e fazendo um gesticulado específico para cada necessidade do parto. Teresa mora na fronteira com a Guiana Francesa e mantém cerimônias religiosas conjuntas com as parteiras de lá. Aprendeu com as vizinha, por exemplo, que chá de pele de cobra faz o menino nascer sem dor.

Cecília Forte, 66 anos, nunca dormiu numa cama, somente em redes de algodão. Está acostumada a passar fome. Gosta mais de remendar do que de partejar e explica: “É um pouco como remendar a vida. Todos dois, um pelo outro.”

A voz de Dorica, a mais velha parteira da floresta, sentencia que “menino, a gente nunca arranca. Só recebe.”

REPORTAGEM POR CESARIANA

A autora tem um arrependimento: não assistiu ao parto feito pela mais velha parteira da floresta, a dona Dorica porque tinha uma entrevista agendada com Roseane Sarney. Ela avalia que cometeu um erro.

Finaliza dizendo que mais escutou do que falou nas entrevistas com as parteiras e que deixou a reportagem fluir como num parto natural.

A guerra do começo do mundo (reportagem de 29/10/2001)

Roraima, reserva indígena Raposa-Serra do Sol. A imprensa noticia que os índios ligados ao Conselho Indígena de Roraima (CIR) teriam invadido as obras do quartel do 6º Pelotão Especial de Fronteira.Os brasileiros não adivinham, mas Roraima está em guerra. É o estado mais aborígene e o mais despovoado. Os 184 mil eleitores são pouco menos que a zona eleitoral do bairro do Jabaquara, em São Paulo.

À noite é impossível transitar, pois os índios não aceitam que brancos circulem de madrugada pelas terras indígenas. Está mais perto de Miami que do Rio de Janeiro.

Em pleno Século XXI, Roraima protagoniza a última guerra entre brancos e índios. É o Brasil de 500 anos atrás.

Num dia comum, no oeste de Roraima, uma jovem ianomâmi é espancada pelo companheiro e depois, devorada por uma onça.

Numa manhã comum no sul de Roraima, a maranhense Cleonice Conceição, de 36 anos, faminta e com os dois filhos assustados como ela, tentam a sorte, pois não têm dinheiro nem onde morar.

Numa tarde comum no leste de Roraima, Maurício Herbert Filho, de 54 anos, explora o suor barato e abundante na região na sua cultura de melancias.

A grande luta de Maurício é para salvar a honra do pai acusado de haver sido cúmplice de Papillon e de homossexualidade.

Numa noite comum no norte de Roraima, espalha-se o boato de que os índios estavam invadindo o quartel. A comunidade mobiliza-se para externar o seu ódio. Ao mesmo temo, o piloto suíço Walter Vogel, de 56 anos voa no seu ultraleve. Vive em Roraima há 19 anos.

A oeste de Walter está a reserva dos ianomâmis, povo que insiste em não conhecer o Século XXI. Dos povos mais isolados do planeta, travam a guerra do começo do mundo enquanto o planeta globalizado ameaça manchar a Terra com um ponto final.

No povoado de Rorainópolis, Cleonice, mais uma retirante maranhense, procura algum conhecido. Consegue abrigo na casa de um conterrâneo. Lá, aguardará o seu homem. Ela é mais uma das pessoas que farão de conta que aquele rincão poeirento, feioso e pobre é o éden bíblico que os pastores não se cansam de lhes prometer. Braulino da Silva, 51 anos, garante que melhor lugar que aquele, só o céu.

Bem mais perto do inferno fica Uiramutã. Brancos e índios estão dispostos a resolver no pau ou nos tiros quem é o dono daquele pedaço do Brasil. A região é reserva indígena, mas tem diamantes e as plantações de arroz dos gaúchos financiadas pelo Banco do Brasil em pleno território dos índios. Se o governo federal não se mobilizar, correrá muito sangue.

Poucos políticos de Roraima são nativos do Estado. Romero Jucá, Teresa Jucá, Ottomar Pinto. Não há uma unidade entre os habitantes compostos na maioria de índios de diversas etnias e migrantes.

Eliakin, filósofo regional, define assim o habitante de Roraima: “Roraimense é quem nasce, roraimada quem não nasceu, mas ama, roraimoso só suga o estado.”

Roraima é um barril de pólvora. As lideranças não se entendem. O Padre Giorgio dal Bem protege os índios e é odiado como a mente maligna que manipula os silvícolas. O suíço Walter Vogel considera-se brasileiro, tem escritório em Berna onde representa produtos do Amapá, ficou rico e adverte: “Os estrangeiros querem tomar conta da Amazônia.”

A principal ameaça estrangeira, para a maioria dos oficiais do quartel, é o Conselho Indígena de Roraima (CIR), os índios ligados ao líder macuxi Jacir de Souza e ao Padre Jorge. Acham que eles conspiram contra o Brasil.

A saga de Cleonice começa com a chegada do marido. Ele está cheio de esperança, pensando que um dia terá uma casa confortável para desfrutar com a família.

Outra saga termina: Armados de paus, os ianomâmis se confrontam. Duas aldeias guerreiam por um caso de amor. O índio ofendido toma sua índia de volta. A paz retorna ao território, mas será por pouco tempo.

Mais um dia comum em Roraima. No oeste, os ianomâmis dançam nus; No leste, Maurício Habert espera uma carta da França inocentando o pai de haver sido cúmplice de Papillon e homossexual; no sul, Cleonice passeia de mãos dadas com Francisco desfila por Rorainópolis. Veste uma camisa com a estampa da prefeita para acelerar a doação de uma casa.

Não há dias comuns em Roraima.

A delícia (e a dor) de ser repórter

A ideia era fazer uma reportagem sobre os arrozeiros de Roraima. Mas, as plantações de arroz estavam em território indígena. Por isso, a história foi se complicando devido aos múltiplos interesses envolvidos.

A autora sente a dor de constatar que pessoas sérias têm a opinião de que garantir terra aos índios é uma ameaça à soberania nacional, que os macuxis de Roraima proclamariam uma república independente do Brasil. A elite política local, vendo a frustração dos migrantes desiludidos, dá força a essa falsa visão culpando os índios pelas mazelas sociais. Assim, há uma luta constante entre os brancos e os índios; entre os índios tradicionais e os evangelizados; entre a Igreja e os brancos. Essa encrenca fascinante motivou a reportagem.

A reportagem começou na reserva ianomâmi. Jantou larvas assadas no meio de grandes fogueiras, dormiu em rede e, de manhã, acordou com os índios escarrando para fornecerem amostras necessárias à equipe de saúde que pesquisava a presença do bacilo da tuberculose no interior da tribo. Foi com larvas assadas, fogueiras e cusparadas densas o início da aventura. E ela achou lindo.

Outra dor foi ter feito muitos inimigos entre a elite de Roraima. Mas, ela confessa, sonha um dia em voltar lá.

A casa de velhos (reportagem de 24/12/2001)

Lugar de pessoas que descobriram abruptamente que envelheceram. Que vivem do pretérito e de um presente incerto, além de um futuro que não desejam conhecer.

A primeira entrevistada, Sandra Carvalho, nem quis se despedir de sua casa. O marido morreu há oito meses, internado, como ela, na Casa São Luiz para Velhice. A Casa fica no bairro carioca do Caju, mesmo do cemitério, destino final de todos que estão ali.

Apesar de habitar uma suíte particular e ter conforto, declara: “Eu me apaguei aqui.” A morte social chegou antes da derradeira batida do coração.

Aos 74 anos, a comerciante portuguesa Fermelinda Paes Campos cumpre o ritual de rebeldia vestindo-se para festa todos os dias. Preso a uma cadeira de rodas, aos 71 anos, o jornalista Paulo Serrado sonha que cavalga águias sobre as montanhas. Rosa Bela Ohanian, 89 anos, emerge da melancolia para cantar músicas de amor dinamarquesas. Aos 86 anos, o mestre de obras Guilherme Coelho entregou-se ao misticismo.

A expulsão do mundo

Noêmia Atala é uma resistente. Sempre afirma que na semana que vem vi embora e que já pediu para a filha trazer a mala.

Os velhos foram expulsos pela família, colocados num lugar em que eles não desejavam habitar. Maria Prado, 100 anos, disse que veio à Casa como hóspede. Depois a hospedagem foi se estendendo e ela já espera morrer longe de casa.

Enfim, os velhos são expulsos pelos buracos nas calçadas, a promoção da bengala para a cadeira de rodas, o cansaço dos pés, o mau-humor dos motoristas de ônibus que os evitam, o ataque de bandidos juvenis. É assim que vão sendo expulsos.

As horas vivas

Rosa Pimentel caiu. Na Casa São Joaquim há uma ala reservada aos velhos que levaram alguma queda. Está paraplégica e aos 88 anos recita poesias, faz rimas. Ela está ciente de que ficará viva enquanto conseguir encaixar uma rima na outra. Noêmia tem uma agenda onde anota as imaginárias visitas que receberá.

As refeições são feitas nos alojamentos ou quartos particulares porque os internados ricos não gostam de almoçar com os pobres. Dividiram a Casa em Zona Sul e Zona Norte, os de lá não se misturando com os de cá.

Aliás, tudo é regulado pelas refeições que são objetos de comentários regulares. No mais, impera o silêncio e a conhecida e monótona rotina.

O tempo das mentiras

Disseram a Vicente Amorim que ele precisava descansar. Ele replica dizendo que “a mentira é também um estado de satisfação”. Afirma que descansar é tudo o que ele não quer.

A expressão “casa de repouso” também é uma mentira para amenizar o efeito da palavra asilo.

Na verdade, os velhos não querem sossego, mas o entusiasmo de jovens incentivando-os a viver.

O tempo das verdades

A casa é mantida pela embaixatriz Regina Bittencourt, uma grande dama de oitenta anos. Abriu as portas aos pagantes por que as doações minguaram.

Diz Maria Prado, centenária: “Não gosto de ser chamada de idosa, eu sou velha mesmo.” Não acha nenhuma velha bonita: “Há as mais conformadas e as menos conformadas. Mas bonita, nenhuma.”

Nas festas mensais são pessoas críticas. Até Pelé, ao cantar uma “musiquinha” na festa mensal da Casa teve a sua participação rejeitada.

Envelhecer é chegar numa idade em que todo o fingimento é descartável como um apêndice.

A esgrima dos sexos

Noêmia viveu 86 anos para constatar que a velhice é feminina: Na Casa há três mulheres para cada homem. Além disso levam tudo muito a sério, especialmente a si mesmos. Guilherme sentencia: “É ridículo namorar nesta idade.”

Já, Fermelinda, a velhinha que gosta de dançar, afirma que o homem nuca morre. Basta ter uma mulher que saiba prepará-lo.

O francês Robert Regard destruiu o coração das velhinhas pela idade, 62 anos, e o físico privilegiado, mas ele desanima qualquer investida. Os homens suportam menos as limitações da velhice. Mais devastados pelos ventos da melancolia, os homens definham enquanto as mulheres esgrimam com elegância as pernas, tendo como pares outras mulheres, nos bailes da Casa. As velhinhas ainda têm o “pique” de reunirem-se para ver os gatos fazendo sexo no telhado.

Os amores possíveis

Na Casa só o amor dos gatos tem ruídos. O amor dos velhos é encabulado. Adyr Galvão Bueno e Gabvriela Svozil amam-se em sussurros. Não conseguem darem-se as mãos. Jamais compartilharão uma cama, falta-lhes o dinheiro para partilhar uma suíte particular. Estão lá de caridade.

Em outra cama do pavilhão, Manoel pensa em Maria do Socorro. São casados. Compartilharam a mesma cama, abraçados, por 60 anos e agora, dormem separados, cada um em sua ala. Eles também não podem pagar o luxo de um quarto particular. Para ela, se banha, penteia os cabelos de polvilho. Para ele, Maria é sempre linda, ele com 86 e ela com 94 anos.

Joaquim Cysneiros Vianna é vítima do mal de Alzheimer. A esposa Áurea foi também internada na casa recentemente. Brilhantes advogados. No entanto, vivem em suítes separadas, pois Áurea vê o marido como um estranho. “Ele não mora está mais aqui, está preso em si próprio.”

Aos 88 anos, Áurea sobrevive pela desistência do verbo querer. “Gostaria de ficar com minha filha, mas entre querer e poder há uma distância.”

Joaquim tem Alzheimer, Áurea é lúcida. A lucidez nem sempre é uma bênção.

A luta de classes

A velhice rica pode ser mais doída, porque feita exclusivamente de perdas. Tudo escapa das mãos, principalmente o poder e escolha. Os pobres levam para o portão uma mala com menos roupas e mais capacidade de reinvenção.

A costureira Rossi Rodrigues, com 72 anos e compositora de música brega, hóspede da ala pobre há 17 anos, é muito respeitada. Lembra aos ricos que se não fossem os pobres a Casa não teria isenção de impostos.  Participa de movimentos sociais e assembleias de minorias. E diz, suave como uma pimenta-do-reino que “se não fosse tão católica, jogava uma bomba no Planalto.”

Santinha tem 92 anos e trabalhou na Casa desde os 14. Um dia, em 1957, descobriu-se que ela tinha companheiro e filhos dentro da Casa. Já estava velha. Por isso, passou de funcionária a interna. Hoje está viúva do carpinteiro Joel. Vive feliz e entrou para a Casa voluntariamente.

Noêmia foi internada contra a própria vontade e continua insatisfeita; liga constantemente para os sete filhos e os netos para lembrá-los, pela enésima vez, que está de malas prontas.

A juventude roubada

A Casa para Noêmia é morte, mas para outra estirpe de internas, é vida. Aquelas que foram exploradas durante a juventude e nunca tiveram descanso adoram a velhice e a Casa. Sugadas de tudo, não há mais nada a arrancar de seus corpos. Então, são alforriadas para morrer.

Laurentina Francisca de Jesus, 84 anos, natural do sertão da Bahia, foi explorada a vida toda. Rezou muito para sair daquela situação. Quando, enfim, foi internada na Casa percebeu que as suas preces foram ouvidas. Adora passear e não perde uma excursão da Casa.

Amália Bernardino Gomes, 91 anos, internou-se voluntariamente. Ajuntou dinheiro toda a vida e conseguiu ser aceita pela Casa.  “Meu sonho era vir para o asilo, não tenho ninguém por mim.”

Outra hóspede da ala dos pobres, Amália, também está feliz. “Graças a Deus não tenho o que dizer. Minha vida foi muito boa. Nasci para morrer.”

Menos conformada é Maria de Lourdes Silva, a Lourdinha Lavadeira. Criou muitos filhos de gente rica e quando um dia ficou doente restou para ela o asilo. Aos 62 anos, no asilo, continua no ofício, lavando as roupas das hóspedes ricas que gostam do seu serviço.  Não tolera a desorganização das companheiras de alojamento, pois é perfeccionista. Lourdinha Lavadeira sofre. Sua alegria é brincar com uma boneca que ela trata como filha.

O dia seguinte

Às dezessete horas, a sopa anuncia o toque de recolher. Os moradores empreendem, depois do jantar, a insônia interrompida por sustos que é a velhice. Lourdinha Lavadeira, às 17 horas, horas acende as luzes do jardim e às cinco, irá apagá-las.

Noêmia, antes de deitar-se confere o dinheiro que mantém escondido debaixo do colchão, sem saber que são notas de brinquedo dadas pelo neto.

Paulo deseja sonhar com atrizes do passado ou com as mais belas fisioterapeutas e enfermeiras da Casa.

Maria Prado só dorme com remédios. Todo dia se apronta para acordar no outro mundo.

Em outro pavilhão, Vicente Amorim só apaga os olhos depois de conferir o pregão da bolsa de valores. “Não mando mais no meu dinheiro, mas não consigo dormir sem saber o resultado do pregão da bolsa.”

Guilherme só abençoa a vida porque ela lhe dá a oportunidade de arrepender-se de seus pecados. “Carne, carne. Prazeres de hoje que amanhã não valem mais.”

Enquanto Guilherme chicoteia a alma, Fermelinda rola na cama pela razão oposta, pois sente falta de carinho de homem. Na falta de carícias, tem o corpo coberto de alergias.

De costas para a Casa, Noêmia empreende a viagem de volta. Por ora, venceu. Uma filha a resgatou.

Na minha mala de mão, um pedido de desculpas

A autora pede desculpas porque passou uma semana na Casa hospedada numa suíte de pagante. Acha que perdeu a oportunidade de passar alguns dias no dormitório coletivo.

Depois de compartilhar a rotina da Casa, de ter ajudado a Dona Noêmia que não aceitava a condição de interna, a ser resgatada pela família, a autora sentia-se como membro daquele comunidade onde havia um inequívoco embate entre classes sociais: a dos ricos pagantes e a dos pobres hospedados gratuitamente. Quando finalmente deixou aquela casa de velhos, sentiu culpa por sair.

Enfim, Eliane Brum pede desculpas por não ter respeitado suficientemente a privacidade dos velhos do asilo, explorando a vontade que eles tinham de falar, conversar. No seu entendimento, revelou inconfidências que eles fizeram sobre si mesmos. Deveria preservá-los mais. Falhou, por não tê-los protegido. Os velhos se ouviram falando de sonhos eróticos, de ardores noturnos, de confinamento e ela tornou tudo público.

A autora repudia um pouco a reportagem porque esta magoou pessoas que nela confiaram.

O homem-estatística (reportagem de 25/2/2002)

Hustene Alves Pereira ficou pobre quando descobriu que não poderia mais comprar Danoninho. Nem biscoito recheado, leite condensado, refrigerante, salsichas, margarina light.

Estava desempregado. Tinha traído o pai e os filhos, pregado na cruz da exclusão da nova pobreza brasileira.

Chegou a Osasco como retirante do Rio Grande do Norte. Entrou no mundo do consumo. Comprou uma televisão em cores para a mãe e conheceu as delícias do consumo. Quando Hustene se descobriu pobre, o fez com todas as cores.

Com 42 anos, ele é o verdadeiro despossuído, porque já teve e agora não tem mais. Hoje Hustene, mais conhecido como Panquinha, é dono apenas dos signos que ainda não lhe saquearam: Corinthians e Nossa Senhora de Fátima.

Sustentado pelo filho de catorze anos que estuda à noite, capitula ao vê-lo afogado no suor da camisa: “Agora, você é o homem da família.” Suprema humilhação para quem progrediu na década de oitenta e viu o seu castelo desmoronar nas seguintes. Pede dinheiro para o cigarro e depois chora.

O pobre homem sai à sacada da humilde casa inacabada de madrugada por sentir vergonha dos vizinhos. Está marcado como um chefe de família decaído, que perde o lugar à luz do Sol e na casa quando não consegue mais produzir. Sustentado pelo filho de 14 anos.

Hustene dirige-se à Força Sindical de Osasco com a esperança de obter uma colocação.  É obrigado a assistir a uma palestra motivacional em que descobre que sem dentes, sem o curso médio completo e sem boas roupas será impossível o emprego. A filha mais velha, com 17 anos, embora tenha até curso de computação, também nada consegue porque não tem experiência. Mesmo assim ele não se inscreve em nenhum programa social do governo porque, para ele, tudo o que não vem do trabalho é esmola.

Adepto do PCdoB, Hustene ainda acredita um pouco na política e afirma que “um homem precisa de futebol, religião e ideologia para não perder a sanidade. Por isso é devoto de Nossa Senhora de Fátima, do Corinthians e de Che Guevara.

Hustene trabalhava em escritório, agora é analfabeto porque ficou fora da informática. Os filhos, também, porque não têm computador. Ele não terá dinheiro para mandá-los à faculdade.  Em fila, os eletrodomésticos conquistados quando tinha um lugar no país aguardam a penhora. O pobre brasileiro e a sua família estão acabados.

E a história continua (com o repórter nela)

Esta reportagem é a fotografia de um momento, um retrato 3X4 feito de palavras.

Início de 2002, Lula tenta pela quarta vez a presidência da república. O país atravessa grande crise. A repórter surpreende-se com o renitente desemprego e com a nova pobreza composta de pessoas que perderam o que haviam conquistado. Era uma pobreza diferente, que começava a ser tema de pesquisa econômica e despontava na literatura e no cinema brasileiros pelo viés da violência.

Apesar de excluído, Pankinha ainda resistia. Chegava a comprar fraldas descartáveis para a neta e Danoninho, apesar da falta crônica de dinheiro. Era uma forma de se sentir humano. Ele era o homem-estatística, a carne que dá sentido aos números.

Pankinha continuou na vida da repórter. Mantiveram contato pelos três anos afora. Assim, ela soube que ele conseguiu um emprego com carteira assinada em maio de 2005. Pankinha tornou-se o homem mais feliz do mundo; não se importava com o pequeno salário e com as inúmeras horas-extras.

Hustene adoeceu, teve um derrame. Em 14 de abril de 2008, andou pela primeira vez sem bengala. Era um pequeno passo para a humanidade, um grande salto para ele.

O povo do meio (reportagem de4/10/2004)

Raimundo Nonato da Silva não sabe quem é Luiz Inácio da Silva. Vive na Amazônia num lugar chamado de Terra do Meio. Integra uma comunidade de 200 pessoas analfabetas como ele e que vivem como os índios viviam antes da civilização, da caça e da pesca. Alimentam-se também do que a floresta lhes dá, e não é pouco.

Grileiros acabaram com a paz dos Raimundos. Na Terra do Meio quase todos são Raimundos.

Raimundo Belmiro, 39 anos, nove filhos. É líder comunitário e jurado de morte por não se submeter aos grileiros, principalmente ao empreiteiro Cecílio do Rego Almeida que insiste em tomar à força um território equivalente à Holanda e a Bélgica juntas.

O país dos Raimundos

Raimundo reedita a história de Chico Mendes, promovido a herói nacional depois de um assassinato anunciado que ninguém impediu. Os Raimundos da Terra do Meio não querem a posse da floresta, só querem viver nela. Sua concepção de mundo não inclui cercas. No entanto, sofrem todo o tipo de violência de grileiros disfarçados de empreendedores.

A travessia de Herculano

Para mostrar ao Brasil que seu povo existe, o líder comunitário Herculano Porto de 60 anos, único a possuir documentos, empreendeu uma viagem a Altamira.

Conseguiu da Comissão Pastoral da Terra a promessa das criação de reserva extrativista na Terra do Meio. Para isso, juntou uma petição com muitas assinaturas representadas pela impressão do polegar direito numa folha de papel.

Enquanto Herculano sofre singrando rios e convivendo com animais selvagens, um pedaço de seu mundo é colocado à venda pela Internet. Analfabeto, Herculano enfrenta impotente o universo da grilagem cibernética. Quando o documento com as digitais de seu povo chegar ao Brasil oficial, talvez já seja tarde para o povo da Terra do Meio, pois os seus castanhais estão sendo destruídos pela sanha dos grileiros. Herculano, como Raimundo Belmiro, é um homem marcado para morrer.

A disputa das almas

Até a chegada dos invasores, a Terra do Meio havia girado sem dinheiro. Os grileiros levaram moeda e cobiça.            Empregam os nativos em serviços ilegais para garantirem os seus empreendimentos escusos. Estes se submetem porque, afinal, recebem em dia. O abandono é tão grande que os grileiros oferecem o que o Estado não dá, até escolas e postos de saúde.

Luiz Augusto Conrado, 51 anos, é um obstáculo para os grileiros. Conhecido como Manchinha avisa: “Na minha terra vocês não entram.” Ele sabe que floresta é o único lugar que tem fartura para o pobre.

Na mira da extinção

Se os invasores vencerem, a Terra do Meio será extinta. O mundo ficará mais pobre em biodiversidade. Desaparecerá uma comunidade que não tem contato com os confortos modernos. Os Raimundos ouvem rádio, mas não assistem televisão. São quase todos Raimundos porque outros nomes não lhes são familiares. 

Raimundo Nonato da Silva, o brasileiro que não sabe quem é Lula tem um campinho de futebol diante da sua casa e acha que não faz diferença saber ou não o nome do presidente do Brasil. Para ele, tanto faz mesmo o nome do presidente. É o Brasil que precisa descobrir Raimundo.

Notícias do País dos Raimundos

A autora viveu uma grande aventura em caminhos inóspitos, enfrentando a selva amazônica. Sua preocupação foi narrar a sua experiência deslumbrante sem parecer deslumbrada. Viveu situações irreais, ouviu histórias inacreditáveis e enfrentou uma grande tempestade. Passou por grande apreensão quando o barco que a transportava quebrou. Para ela, aventura, mas para o piloto da barca voadeira que a conduziu e para a tripulação, mera rotina.

Eliane Brum surpreendeu-se com a vontade que aquele povo tem de estudar, deixar de ser “cego” (analfabeto). Observou que morrem muitas pessoas por falta de tratamento médico; os Raimundos dispõem apenas dos remédios da floresta e sucumbem quando precisavam de recursos médicos mais complexos.

A autora nunca vai esquecer do corpo franzino do seu Herculano, resistindo em cima da sua floresta contra a sanha dos poderosos e violentos grileiros.

A reportagem deu frutos. No final de outubro, Raimundo Belmiro, Herculano Porto e Luiz Augusto Conrado, o Manchinha, foram levados a Brasília para darem notícias da guerra na floresta. O Presidente Lula conheceu Raimundo Nonato e criou a reivindicada reserva extrativista em 8 de novembro de 2004. O decreto de Lula foi a certidão de nascimento do País dos Raimundos. A primeira escola foi instalada na Reserva Extrativista. A felicidade da repórter não cabia mais em suas letras...

Expectativa de vida: vinte anos (reportagem de 3/4/2006)

No princípio foi o Gênesis. Este era para ser o seu nome pela vontade da mãe, Raimunda, evangélica. O pai, no entanto, escolheu Sérgio, o futuro Serginho Fortalece. Sérgio Cláudio de Oliveira Teixeira estrelou, com 21 anos, o documentário Falcão – Meninos do Tráfico, no programa Fantástico, como único sobrevivente de uma quadrilha de jovens delinquentes a serviço do tráfico de drogas.

Serginho Fortalece repete o bordão das periferias: “Essa vida de crime só acaba em cadeia, cadeira de rodas ou cemitério.” Está vivo porque foi preso.

Recém saído da cadeia, Serginho Fortalece, usa outra arma: a filmadora. Vive a fama de ser celebridade depois que a sua história saiu na TV.  O povo torce por ele e as mensagens de solidariedade são muitas.

Desde os dez anos de idade, Sérgio era o Falcão do pai, isto é, o olheiro, o vigia que garantia a segurança dos marginais. Seu destino estava traçado: morrer cedo, pois a expectativa de vida de um Falcão é vinte anos. Serginho Fortalece empunhou a primeira arma, uma pistola, aos doze anos.

O sonho de Fortalece é ser palhaço. Tem medo de fracassar. Ele é só um sobrevivente do tráfico tentando virar palhaço no meio do picadeiro. No novo caminho é incentivado pelo rapper MV Bill.

Registrado duas vezes, uma pelo pai traficante (Sérgio), outra pelo tráfico (Fortalece), seu desafio é conquistar um terceiro batismo para vencer como palhaço. Seu nome? Orelhão.

Mães vivas de uma geração morta

No tráfico, as mães lamentam sempre mais de um filho morto em plena infância ou juventude. Aceitam o fado com resignação. Esse cenário foi mostrado pelo rapper MV Bill e pelo produtor Celso Athayde, da Central única das Favelas (Cufa) no documentário Falcão. Dos 17 garotos do filme, apenas um está vivo: o Sérgio. A dura realidade afirma que somente as exceções passarão dos vinte anos de idade.

A mãe mutilada

Nenhum idioma tem nome para quem sobrevive a um filho. Para tal dor não há lugar sequer na língua. Selvina, 74 anos, perdeu doze filhos, a maioria de forma violenta. Selvina, fundadora de Brasília, sobrevivendo, mutilada, com os tocos dos dedos consumidos por moléstia. Morando num covil, cuida, agora, da neta grávida. A mãe da moça, filha de Selvina, morreu numa briga de traficantes. Dá um conselho à neta, quando esta sente as contrações: “Se aquieta, menina, que eu não tenho dinheiro. Vai ter de esperar.”

Depoimento de Selvina: Quando morreu o terceiro, achei que eu fosse morrer também e comprei uma mortalha de tergal branco. Quem morreu foi minha filha. Vesti nela a mortalha que era pra mim.”

Uma faca no útero

Eva mora na Brasilândia, zona norte paulistana. O marido achava que ela tinha uma maldição porque os filhos morriam cedo. Por isso, agredia-a, esfaqueava-a no útero, marcava-a com faca. Acreditava que ela era um ente inferior. Ao ser entrevistada, Eva chorou muito: Mães que perdem filhos assassinados são pedras que choram.”

Depoimento de Eva: “Meu terceiro filho foi assassinado na boda de fumo com um tiro no peito. Tinha 22 anos. Eu já tinha perdido os outros dois. Minha cabeça bate. Parece que tem um tambor. Ouço esse barulho dia e noite.”

Sangue na torneira

Graça mora num prédio invadido no Rio de Janeiro. Vive com os netos, pois os três filhos morreram. Um dos filhos foi atirado morto na caixa d’água do prédio que ficou contaminada: A água saía pela torneira manchada de sangue. Os netos são traumatizado porque assistiram à morte violenta dos pais. Sente-se presa porque é impossível sair da favela. Graça está perdendo os dentes.

Depoimento de Graça: “Não fui ao enterro de nenhum dos meus filhos. Se pudesse, eu me enterrava.”

O fuzil no portão

Francisca mora no mesmo prédio em que vive Graça, no Rio de Janeiro. Quando o filho de Francisca entrou para o tráfico, a vida da família melhorou, mas ela não permitia que ele entrasse em casa com o seu fuzil que ficava no portão. Ela tinha medo. Ele ganhava bem. A felicidade durou um ano, até a precoce morte do rapaz. Francisca mora no lado da Av. Brasil em que as pessoas morrem de morte matada.

Depoimento de Francisca: “Meu filho gritava porque estava perdendo muito sangue. A polícia ouviu, arrombou a porta e ele morreu. O tráfico pagou o enterro.”

Por um real

O filho de Maria estreou no tráfico, como avião, aos doze anos. Morreu executado aos 25 anos. Morreu por causa de um real.

Depoimento de Maria: Meu filho saiu das minhas entranhas, eu carreguei nove meses, eu amamentei. Eu enterrei.”

O segundo caixão

A mãe pagou o caixão do filho por quase cinco anos. O menino estava vivo. Finalmente, ele morreu com vinte anos.  No dia seguinte, a mãe começou a comprar o caixão do próximo filho. Essa é a saga de Enilda, 44 anos, moradora de Fortaleza. “É horrível comprar caixão pra filho vivo, mas meus meninos vão morrer honestamente.”

Na casa de Enilda oito pessoas, entre adultos e crianças, e mais de uma dezena de passarinhos dividem o único quarto de dormir. Por isso, os meninos são recolhidos somente à noite e passam o dia na rua.

Depoimento de Enilda: Quando meu filho apareceu em casa vivo, mas com um tiro no peito, comecei a pagar o caixão. Agora, pago as prestações do caixão do meu segundo filho. Ele ainda está vivo, mas vai morrer.”

A viúva criança: e a próxima geração

Ela tem catorze anos. É viúva. Mora na Brasilândia, zona Norte de São Paulo. No enterro do marido carregava uma barriga de dois meses. A sogra, Eva, prepara o espírito para a morte do neto.

Em outra periferia do Brasil, outro neto quer crescer para matar o menino que assassinou o seu pai.

Olhar para ver

Falcão – Meninos do Tráfico foi um acontecimento. O documentário cru de MV Bill e Celso Athayde eram cenas para ver – não para assistir. Por isso, impressionaram. Eliane Brum consegue entrevistar uma tia de Serginho Fortalece. Ela contou que nem o sobrinho sabia que o nome escolhido por sua mãe para batizá-lo era “Gênesis”.

A repórter preservou a linguagem de Fortalece, porque era a expressão autêntica daquele ser. Foi pela linguagem que Fortalece sobreviveu. Serginho Fortalece despertou na autora o desejo de entrevistar mães de menores traficantes. Surgiu uma reportagem única com depoimentos fortes. Ela complicou a pauta virando os meninos pelo avesso, mostrando outro olhar sobre eles: o das mães.

A repórter surpreende-se ao concluir que muitas dessas mães fazem o serviço que nós, classe média, não nos submetemos a fazer: São aquelas que servem para cuidar de nossos filhos e que não conseguiram criar os próprios. Para a sociedade, são apenas “mães de bandidos”. Para nossos filhos, há futuro, e para os delas há caixão.

Coração de ouro (reportagem de 5/2/2007)

No Eldorado do Juma, a maior corrida do ouro desde Serra Pelada, o patrão se chama Zé Capeta. Às margens do rio Juma, as prostitutas cobram em gramas de ouro. O Eldorado do Juma fica no sul do Amazonas a 460 quilômetros de Manaus.

O garimpo parece uma cidadezinha do faroeste onde se compra qualquer coisa com ouro, até armas e munição. Um pastor evangélico alemão organiza os aventureiros que não param de chegar.

Zé da Balsa e Mariano: a primeira guerra

Em 2006, quatro peões começaram a arrancar o ouro em segredo. Um deles bebeu demais e falou sobre o ouro. Daí em diante, acabou o sossego.

Zé da Balsa e Mariano, garimpeiros velhos, descobriram um ótimo veio. Foram expulsos com violência. Contentam-se com um local de poucos recursos. Eles descobriram, do modo bruto, como são feitas as coisas naquele lado do mundo, nas terras do Zé Capeta.

Um patrão com nome de diabo

Zé Capeta ou José Ferreira da Silva Filho tem um título de propriedade duvidoso dentro do garimpo. É pacato e nada justifica o apelido.Como “patrão” do garimpo, ele passou a exigir o pagamento de 8% sobre todo ouro encontrado nos baixões até que a cooperativa determine outro modo de funcionar.

Os “cabeças” do garimpo é que fazem os acertos com Zé Capeta. O Cabeça consegue esse status pela violência ou pela ascendência sobre os outros garimpeiros. Há uma complexa hierarquia no garimpo nos moldes do que ocorria na Idade Média, inclusive com a presença de exércitos particulares. É esse o sistema de produção que o governo quer mudar com a criação de uma cooperativa.

Um tal César “Santinho”

No Juma, o verdadeiro “capeta” atende pelo nome de César “Santinho”. Depois de explorar Zé Capeta e ameaçá-lo, roubou-o e fugiu.

Zé Capeta tem esse nome por causa de sua capacidade de dominar animais bravos. É um pobre coitado, lutando para ver reconhecidos os seus direitos usando dos expedientes concedidos pela legalidade. Se a escritura dele não vale nada, o requerimento de autorização de pesquisa junto ao DNPM reconhece, para ele, a prioridade da lavra. É por isso que Zé Capeta ainda não foi apagado da guerra feroz do garimpo.

Ainda Tem e o ouro dos crentes

Ainda Tem é um desses cabeças de garimpo que formam a nobreza do Eldorado do Juma. Mestre na arte de machucar-se com gravidade e ter prejuízos, na noite de 17 de dezembro de 2006, Ainda Tem era um dos viventes mais estropiados do Apuí. Diz que recebeu o chamado de Deus num sonho e vendeu o carrinho de ambulante que lhe rendeu o apelido e embrenhou-se no garimpo. Nas primeiras semanas de janeiro ele encontrou ouro. Ainda Tem escolheu três garimpeiros crentes para ajudá-lo, o mais querido é o Negão da Caçamba.

De vez em quando, ele e os amigos são roubados, mas como no tempo do carrinho em que vendia guloseimas, ele, com otimismo, afirma que “ainda tem”.

O prefeito, o padre e os dois filhos de Francisco

O ouro não é uma unanimidade. O Prefeito Antônio Roque Longo e o Frei Itacir Fontana são ferrenhos opositores; um por motivo social, pois acha que os garimpeiros vivem de forma inóspita, o outro, porque a igreja esvaziou-se. Excetuando-se os dois, até a nata da sociedade local entregou-se ao brilho do nada vil metal.

Francisco Soares Neto, alagoano de 54 anos, vibra porque o seu comércio prospera graças ao garimpo. Pensa em mandar os dois filhos, que têm nomes bíblicos, para estudar na faculdade.

O cabaré de dona Andréia e a saga das putas que gozam

Nilberto Leite, instalado dentro da vila do garimpo, faz negócios rentáveis envolvendo ouro e gado. Andréia Gobbi, mulher vistosa de 34 anos, tem um tino afiado para os negócios. Desfez-se do maios supermercado de Apuí e, com o irmão e a cunhada, passou a explorar a prostituição de luxo. Ergueu um cabaré. Possui uma boa equipe de moças. Puta de garimpo que tem cabeça se faz respeitar, tem status, anda de cabeça erguida, afinal, são poucas mulheres para muitos homens carentes.

As mais previdentes chegam no garimpo e acercam-se do melhor partido disponível. Passam a ser a puta de um homem só. De quebra, ninguém mexe com elas, porque, no garimpo, puta tem calibre de esposa.

Mas, nada é perfeito e essas mulheres espertas caem nas garras do amor e apaixonam-se por um lindo pé rapado que as fazem gozar. Elas lamentam, mas no fundo, é o que querem.

Uma saga de brasileiros andantes

À primeira vista, só o que aparece é a gigantesca clareira, no sul do Amazonas, cavada por mãos humanas. Na verdade, ali está o Brasil que anda. O garimpeiro aventura-se em busca da riqueza que raramente vem. Então, anda sem parar. Coleciona decepções e doenças, mas sente-se vitorioso. Ele adora a lama, o terreno lodoso, a multidão. Assim, segue em busca de seu sonho.

Garimpando o Zé Capeta

Foi difícil entrevistar Zé Capeta. Por causa de ardil de César Santinho, ele estava escondido em Manaus, com medo de ser assassinado.

Eliane Brum precisava entrevistar Zé Capeta e fazer um trabalho limpo, sem a influência natural de preconceitos contra uma profissão conhecida por prejudicar o meio ambiente e os índios. No último dia de sua estada, foi a Manaus, pois tinha a esperança de encontrar o “patrão” do garimpo de Apuí.

A repórter conseguiu marcar a entrevista no hotelzinho em que que ele estava hospedado. Encontrou-o acuado num ca